Discursos e Transcrições

O Fim do Terceiro Mundo?

14 de abril de 2010


Robert B. Zoellick

Conforme preparado para pronunciamento

Modernizando o Multilateralismo para um Mundo Multipolar

Robert B. Zoellick

Presidente
Grupo Banco Mundial

Woodrow Wilson Center for International Scholars

14 de abril de 2010

Introdução: O Fim do Terceiro Mundo?

Há décadas os estudiosos da segurança e política internacional vêm debatendo o surgimento de um sistema multipolar. É chegado o momento de reconhecer um novo paralelo econômico.

Se 1989 presenciou o fim da “Segunda Guerra” com o desaparecimento do comunismo, 2009 viu o fim do que era conhecido como o “Terceiro Mundo.” Estamos agora em uma economia mundial nova, multipolar e em rápida evolução – na qual alguns países em desenvolvimento surgem agora como potências econômicas; outros caminham no sentido de se tornarem polos adicionais de crescimento; e outros ainda lutam para alcançar seu potencial neste novo sistema – no qual o Norte e o Sul, o Leste e Oeste agora orientam novos navegadores econômicos sem identificar modelos econômicos antigos.

A pobreza continua e deve ser enfocada. Estados fracassados permanecem e devem ser enfocados. Os desafios globais se estão intensificando e devem ser enfocados. Mas a maneira de enforcarmos estas questões está mudando. As categorizações ultrapassadas de Primeiro e Terceiro Mundos, doadores e suplicantes, dirigentes e dirigidos, não se enquadram mais.

As implicações são profundas: para o multilateralismo, para a ação cooperativa global, para as relações de poder e para as instituições internacionais.

O multilateralismo é importante

A crise econômica global demonstrou que o multilateralismo é importante. À beira do abismo, os países uniram-se para salvar a economia global. O moderno G-20 nasceu da crise. Mostrou seu potencial agindo rapidamente para reforçar a confiança. A questão agora é saber se isso foi uma distorção ou um vislumbre.

Ao refletirem sobre 2009, os historiadores considerarão o episódio como um caso isolado de cooperação internacional ou o início de algo novo? Agora alguns consideram a tentativa de Woodrow Wilson de criar um novo sistema internacional após a Primeira Guerra Mundial como uma oportunidade perdida que deixou o mundo à deriva entre perigos. Será este um momento semelhante?

O perigo agora é o seguinte: quando diminuir o medo da crise, também diminuirá a disposição de cooperar. Já sentimos as forças gravitacionais trazendo um mundo de Estados-nação de volta à busca de interesses mais estreitos.

Isso seria um erro. As placas tectônicas, tanto econômicas como políticas, estão se deslocando. Podemos deslocar-nos com elas ou continuar a ver um novo mundo através do prisma do antigo. Precisamos reconhecer as novas realidades. E agir baseados nelas.

O que é diferente? Novas fontes de demanda

O que é diferente?

O mundo em desenvolvimento não foi a causa da crise, mas pode ser parte importante da solução. Nosso mundo terá aspecto diferente em 10 anos e a demanda virá não somente dos Estados Unidos mas de todo o mundo.

Já podemos perceber as mudanças. A parcela da Ásia na economia global em termos de paridade do poder aquisitivo tem aumentado constantemente, passando de 7% em 1980 a 21% em 2008. As bolsas de valores da Ásia representam agora 32% da capitalização do mercado global, 30% à frente dos Estados Unidos e 25% da Europa. No ano passado a China superou a Alemanha, tornando-se o maior exportador do mundo. Superou também os Estados Unidos, tornando-se o maior mercado de automóveis do mundo.

Os números das importações contam uma história diferente: o mundo em desenvolvimento está se tornando um impulsor da economia global. Grande parte da recuperação do comércio mundial é devida a uma forte demanda de importações entre os países em desenvolvimento. As importações desses países já estão 2% acima do ponto mais alto antes da crise em abril de 2008. Em contraste, as importações dos países de alta renda ainda estão 19% abaixo do ponto mais alto anterior. Embora as importações do mundo em desenvolvimento sejam apenas cerca de metade das importações dos países de alta renda, estão crescendo a uma taxa muito mais rápida. Como resultado, representam mais da metade do aumento da demanda de importações mundiais desde 2000.

Novos polos de crescimento

A economia mundial está se reequilibrando. Uma parcela disso é algo novo. Outra representa uma restauração. De acordo com Angus Maddison, a Ásia representa mais da metade da produção do mundo em 18 dos últimos 20 séculos. Estamos presenciando uma tendência no sentido de múltiplos polos de crescimento à medida que aumenta a classe média nos países em desenvolvimento, bilhões de pessoas entram na economia mundial e novos padrões de integração combinam intensificação com abertura global.

Esta mudança não ocorre apenas na China ou na Índia. A parcela do PIB global do mundo em desenvolvimento em termos da paridade do poder aquisitivo aumentou de 33,7% em 1980 para 43,4% em 2010. Os países em desenvolvimento provavelmente mostrarão taxas de crescimento robusto nos próximos cinco anos e além. A África Subsaariana poderá crescer em uma média superior a 6% em 2015, ao passo que o Sul da Ásia, onde vive metade da população pobre do mundo, poderá crescer no máximo até 7% ao ano no mesmo período.

O Sudeste asiático tornou-se uma região de renda média de quase 600 milhões de habitantes, com vínculos crescentes com a Índia e a China, aprofundando as ligações com o Japão e Austrália e mantendo os vínculos com a América do Norte e a Europa por meio de terceirização global.

A região do Oriente Médio é uma importante fonte de capital para o resto do mundo e um eixo de negócios cada vez maior entre o Sul e Leste da Ásia e a Euroáfrica. As reservas oficiais brutas do Conselho de Cooperação dos Países do Golfo elevavam-se a US$ 515 bilhões no fim de 2008, com estimativas de ativos do fundo soberano de riqueza de até US$ 1 trilhão. Se a Maghreb continuar a caminhar além das falhas históricas, poderá ser parte de uma integração Euro-Oriente Médio vinculada tanto ao Oriente Médio como à África.

Na região da América Latina e do Caribe 60 milhões de pessoas foram tiradas da pobreza no período de 2002 a 2008 e uma classe média crescente impulsionou os volumes das importações a uma taxa anual de 15%.

A África como polo potencial de crescimento

As placas tectônicas poderão deslocar-se ainda mais. A África perdeu a revolução industrial que tirou da pobreza as economias do Leste asiático e as levou à prosperidade. Mas a África não precisa mais ficar para trás.

Hoje, em muitos países africanos, até mesmo itens pequenos e baratos, tais como sabonete ou chinelos, ferramentas básicas ou bens de consumo, são importados. Se os africanos removerem as barreiras à produção interna desses bens, deixando-a ao empresariado local e, ao mesmo tempo, criando condições para investidores externos mudarem a produção para a África, então o desenvolvimento africano poderá começar a adquirir nova fisionomia. Ao contrário de esforços fracassados do passado para favorecer interesses de substituição de importações com base no protecionismo, este enfoque pode captar benefícios da integração regional dentro dos mercados globais.

O que será preciso? Como primeiro passo, os 80% de africanos que ganham US$ 2 por dia ou menos precisam ganhar uma renda suficiente para estarem em condições de adquirir bens de consumo básico. A agricultura é a principal fonte de emprego e uma primeira oportunidade para aumentar a produtividade e a renda. Para conseguir isso, é preciso um investimento em toda a cadeia de valores agrícolas: direitos de propriedade, sementes, irrigação, fertilizantes, financiamento, tecnologias básicas, armazenagem e transporte de produtos ao mercado. Como cerca de dois terços dos agricultores africanos são mulheres, precisamos ajudá-las a obter direitos jurídicos e de propriedade e acesso a serviços.

Com renda ligeiramente maior e melhor padrão de vida, os fabricantes locais podem direcionar e adaptar seus produtos ao mercado local e, em seguida, à exportação.

Para crescer mais, os africanos precisam daquilo que a Europa e o Japão precisaram depois da Segunda Guerra Mundial: infraestrutura; energia; mercados integrados, vinculados à economia global; e condições para um setor privado vibrante. Estes bens públicos não promoverão apenas a fabricação local.

As mudanças de hoje abrem novas oportunidades. Atingidos pela crise global, alguns chineses reconheceram que era o momento de ir além da fabricação de brinquedos e calçados. A China poderia subir na cadeia de valores, aumentar os salários e o consumo e expandir sua “sociedade harmoniosa”. As empresas chinesas, por sua vez, poderiam levar a fabricação de valor agregado mais baixo a outras partes, incluindo a África, acompanhando os desenvolvedores de recursos e as empresas de construção da China.

As empresas chinesas poderiam ser incentivadas a direcionar a fabricação tanto para a produção interna como para a exportação. Esses fabricantes trazem consigo o know-how e maquinaria, bem como o acesso às redes de comercialização e distribuição. O Banco Mundial está trabalhando com africanos e chineses para criar zonas industriais.

Os primeiros investidores estão percebendo o aspecto promissor da África e não se deixam dissuadir pelos riscos – depois da Lehman Brothers e da Grécia, os investidores sabem que os mercados desenvolvidos também podem apresentar riscos.

As mudanças nas políticas públicas podem criar oportunidades para o crescimento do setor privado, o que, por sua vez, oferece serviços a outros empresários. Nos 10 anos precedentes a 2008, o setor privado investiu mais de US$ 60 bilhões em tecnologia da informação e comunicação na África; 65% dos africanos podem agora ser alcançados por meio de serviços de voz sem fio e há 400 milhões de telefones celulares em uso na África.

A IFC, o ramo do setor privado do Grupo Banco Mundial, ajudou a catalisar essa revolução empresarial. O fundo de capital da IFC atraiu US$ 800 milhões da riqueza soberana e fundos de pensão para investir em empresas na África, América Latina e Caribe,

Mudanças econômicas significam mudanças potenciais de poder

Renda e crescimento maiores no mundo em desenvolvimento significam maior influência. O velho mundo de bate-papos aconchegantes frente à lareira entre os líderes do G-7 desapareceu. A discussão de hoje requer uma mesa grande para acomodar os participantes-chave e os países em desenvolvimento devem sentar-se a esta mesa.

A Cúpula do G-20 do ano passado em Pittsburgh reconheceu essa mudança. No entanto, será preciso mais do que palavras no papel. As palavras de Woodrow Wilson no papel não realizaram seus nobres ideais. Não será fácil conseguir um novo compartilhamento de responsabilidades entre grupos mutuamente interessados nos sistemas internacionais. Mas acontecer é uma necessidade. O fracasso de 1919 resultou em países que não podiam cooperar em 1929 e ao início de uma nova guerra na Europa em 1939.

Hoje já vemos essas tensões. A rodada de Doha da Organização Mundial de Comércio e as conversações sobre mudança climática em Copenhague revelaram como será difícil compartilhar benefícios e responsabilidades mútuos entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Esses debates também deixaram exposta a diversidade de desafios que enfrentam diferentes países em desenvolvimento.

Se já não é mais possível solucionar grandes questões internacionais sem a participação de países em desenvolvimento e em transição, também não é mais possível supor que os maiores membros, os chamados “BRICs” – Brasil, Rússia, Índia e China – representem todos os outros.

E este será o caso de uma série de outros desafios no horizonte: recursos hídricos; doenças; migração; demografia; e Estados frágeis e em situação de pós-conflito.

Ao descobrirmos um novo fórum no G-20 devemos usar de cautela para não impor ao mundo uma hierarquia nova e inflexível. Ao contrário, o G-20 deve operar como um “Grupo de Coordenação” em uma rede de países e instituições internacionais. Deve reconhecer as interligações entre os problemas e promover pontos de interesse comum. Esse sistema não pode ser hierárquico e não deve ser burocrático. Deve demonstrar sua eficácia na obtenção de resultados.

O perigo de uma geopolítica costumeira

O perigo da gravidade política que arrasta os países de volta à busca de interesses estreitos é o fato de focarmos este mundo em transformação através do prisma do antigo G-7. Os interesses dos países desenvolvidos, embora bem-intencionados, não podem representar a perspectiva das economias emergentes. Não podemos dar-nos ao luxo de continuar a geopolítica costumeira.

Nem podemos refugiar-nos no “velho multilateralismo” – a solução do Congresso de Viena presidido por Klemens Wenzel von Metternich no século XIX – que procura resistir à mudança. Uma “nova geopolítica de economia multipolar” precisa compartilhar responsabilidades, reconhecendo ao mesmo tempo perspectivas e circunstâncias diferentes, a fim de construir interesses mútuos e sistêmicos.

Reforma financeira

Examinemos a reforma financeira: o mundo pagou um preço enorme pelos colapsos do sistema financeiro global em perdas de emprego e vidas arruinadas.

Naturalmente precisamos de melhor regulamentação financeira, com capital e padrões normativos mais sólidos. Um novo contexto normativo deveria considerar riscos sistêmicos, reverter a uma regulamentação que reforce os altos e baixos dos ciclos, consolide a supervisão para evitar hiatos e considere a inflação tanto nos preços dos ativos como nos bens e serviços.

No entanto, devemos acautelar-nos contra consequências não premeditadas. Não devemos aumentar os custos incentivando o protecionismo financeiro ou restringindo injustamente os serviços financeiros às pessoas de baixa renda. As regulamentações acordadas em Bruxelas, Londres, Paris ou Washington poderiam funcionar para os grandes bancos no mundo desenvolvido. Mas o que dizer a respeito de bancos menores, quer estejam em países desenvolvidos ou em desenvolvimento?

Essas regulamentações poderiam desestimular o setor financeiro, a inovação e a gestão do risco nos países em desenvolvimento. Poderiam tornar mais difícil investir através das fronteiras nacionais.

Os requisitos de “emprestar localmente” podem ter os mesmos efeitos de “comprar localmente”. Os requisitos da “presença física local” podem frustrar os serviços, da mesma forma como podem interromper o comércio. Os requisitos de “liquidez local” podem fragmentar a gestão da liquidez global e acrescentar custos enormes sem reforçar a segurança.

Os derivativos têm agora má fama. Isso é compreensível quando nos lembramos da AIG. Mas os derivativos são usados pelos agricultores no Meio-Oeste dos Estados Unidos para se protegerem contra a volatilidade do preço dos cereais. O México usou as opções de energia para fixar um preço do petróleo que paga grande parte do orçamento público.

O Banco Mundial foi pioneiro nos intercâmbios de moeda e os utiliza para se proteger contra o risco de divisas e de taxas de juros. Nossos empréstimos oferecem oportunidades de compensação para proteger os mutuários contra o risco de divisas ou de taxas de juros e até mesmo contra secas e catástrofes. Ao ajudarmos a desenvolver o empréstimo em moeda nacional, vinculado aos mercados globais, ajudamos a proteger os países em desenvolvimento contra os maremotos financeiros da crise recente.

A inovação financeira, quando usada e supervisionada de forma prudente, tem trazido ganhos de eficiência e protegido contra riscos: o Banco Mundial é pioneiro no oferecimento de seguro pecuário para criadores de gado da Mongólia; derivativos das condições climáticas contra seca em Malawi; e conjunto de seguro contra catástrofe no Caribe. Este último concedeu ao Haiti, de forma imediata, US$ 8 milhões em janeiro por ocasião do terremoto – dinheiro mais rápido do que qualquer outra fonte externa.

Conforme acautelou o ex-Presidente Zedillo, do México, o problema para os pobres não é haver mercados demais mas de menos. Precisamos de mercados para o microfinanciamento ou pequenas e médias empresas, especialmente se dirigidas por mulheres; para movimentar, armazenar e vender bens; para guardar, segurar e investir.

Wall Street expôs os perigos da inovação financeira e precisamos considerar e adotar medidas prudentes. Mas o desenvolvimento já demonstrou seus benefícios. O prisma populista do G-7 pode solapar oportunidades para bilhões de pessoas.

Mudança climática

Examinemos a mudança climática: o perigo está no fato de utilizarmos normas dos países desenvolvidos para impor um modelo único aos países em desenvolvimento. E eles vão dizer não.

A política de mudança climática pode estar vinculada ao desenvolvimento e conseguir o apoio dos países em desenvolvimento para o crescimento com baixa emissão de carbono – mas não se for imposta como camisa de força.
Não se trata de falta de compromisso com um futuro mais verde. Os habitantes dos países em desenvolvimento também querem um meio ambiente limpo.

Os países em desenvolvimento precisam de apoio e financiamento para investir em vias de crescimento mais limpo. Um bilhão e seiscentas mil pessoas carecem de acesso à eletricidade. O desafio é apoiar transições para uma energia mais limpa sem prejudicar o acesso, produtividade e crescimento que podem tirar da pobreza centenas de milhares de pessoas.

Evitar a geopolítica costumeira significa examinar as questões de forma diferente. Precisamos sair da escolha binária de energia ou meio ambiente. Precisamos adotar políticas que reflitam o preço do carbono, aumentem a eficiência energética, desenvolvam tecnologias de energia limpa com aplicações nos países mais pobres, promovam a energia solar fora da rede, introduzam inovações geotérmicas e assegurem benefícios do tipo ganha-ganha decorrentes de políticas sobre o uso de florestas e terras E nesse processo criem empregos e fortaleçam a segurança energética.

O mundo desenvolvido prosperou por meio da hidreletricidade proveniente de represas. Alguns não creem que o mundo em desenvolvimento deva ter o mesmo acesso a essas fontes de energia utilizadas pelos países desenvolvidos. Para eles, pensar assim é tão fácil como acionar um interruptor e deixar as luzes queimarem em um cômodo vazio.

Embora tenhamos de cuidar do meio ambiente, não podemos destinar as crianças africanas a fazerem o dever de casa à luz de vela ou negar a trabalhadores africanos empregos no setor manufatureiro. O velho prisma dos países desenvolvidos é a maneira mais certa de perder o apoio dos países em desenvolvimento para as metas ambientais globais.

Gestão da resposta à crise

Examinemos a resposta à crise: em um mundo em transição, o perigo é o fato de os países desenvolvidos focarem as cúpulas de sistemas financeiros ou se concentrarem na má gestão dos países desenvolvidos, como é o caso da Grécia.

Os países em desenvolvimento precisam de cúpulas para os pobres. Uma lição da crise é o fato de as redes eficazes de segurança terem impedido a perda de uma geração – ao contrário da crise asiática da década de 1990.

Ouvir o ponto de vista dos países em desenvolvimento não é mais simplesmente uma questão de caridade ou solidariedade. É uma questão de autointeresse. Esses países em desenvolvimento são agora fontes de crescimento e importadores de bens de capital e serviços dos países desenvolvidos.

Os países em desenvolvimento não querem simplesmente discutir a alta dívida dos países desenvolvidos; querem focar os investimentos produtivos na infraestrutura e no desenvolvimento da primeira infância. Querem liberar os mercados para criar empregos, maior produtividade e crescimento. Muitos estão examinando como usar a inovação e a eficiência dos mercados privados para ajudar a proporcionar e manter a infraestrutura e serviços do setor público.

Novo papel das potências emergentes

Modernizar o multilateralismo, no entanto, não é simplesmente os países desenvolvidos aprenderem a adaptar-se às necessidades das potências emergentes. O poder traz responsabilidade.

Os países em desenvolvimento precisam reconhecer que agora fazem parte da arquitetura global. Estão interessados em sistemas internacionais saudáveis, dinâmicos e flexíveis para o financiamento, comércio, movimentação de ideias e de pessoas e meio ambiente – bem como instituições multilaterais sólidas.

Precisamos encontrar pontos de vantagem mútua, tornando possível o ganho recíproco. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer as restrições políticas internas e os temores locais. Precisamos de acordos que todo líder possa vender no respectivo país.

O que este mundo em transformação significa para o desenvolvimento?

O que este mundo em transformação significa para o desenvolvimento?

O desenvolvimento já não é mais apenas Norte-Sul. É Sul-Sul e até mesmo Sul-Norte, com lições para todas as pessoas de mente aberta. São os programas de transferência monetária condicional no México que estão sendo estudados no mundo inteiro. São os indianos explicando na África a assim chamada “revolução branca” – que impulsionou a produção de leite. É um novo mundo no qual os países em desenvolvimento não são somente beneficiários mas provedores de ajuda e perícia. E não se trata de uma panaceia ideológica, de moldes ou tamanho único. Em uma economia multipolar, o desenvolvimento tem a ver com o pragmatismo, aprender da experiência, reconhecer como mudam os mercados e as oportunidades de negócios, compartilhar ideias e conectar o conhecimento, tal como conectamos mercados, através de redes inovadoras.

E o futuro do desenvolvimento também não se limita simplesmente aos antigos conceitos de ajuda: os fundos soberanos e de pensões que esperam investir com o Grupo Banco Mundial na África representam uma nova forma de intermediação financeira. Isto não é caridade. É um investimento em busca de bons retornos. A IFC está ajudando a reduzir as barreiras da informação e os custos das transações. Nosso objetivo nada mais é senão revolucionar os fluxos financeiros para os países em desenvolvimento.

Modernizar as instituições multilaterais

Como gerenciaremos uma “nova geopolítica para uma economia multipolar” em que todos sejam representados de forma justa em associações para muitos e não clubes para alguns poucos.

Se as placas tectônicas estão se deslocando, as instituições multilaterais também precisam mudar. A crise demonstrou as possibilidades da cooperação internacional, mas ressaltou a necessidade de modernizar e fortalecer as instituições multilaterais para refletir um mundo diferente.

O novo mundo requer a identificação de interesses mútuos, negociação de ações em comum e gestão de diferenças em um espectro muito mais amplo de países jamais visto.

Requer instituições rápidas, flexíveis e responsáveis que possam dar voz aos que não a tem com recursos disponíveis.

Requer instituições que se aproximem dos parceiros, com humildade e respeito, prontas para aprender de outros, que possam agir como conectores globais, pioneiros em um novo mundo de aprendizado e intercâmbio Sul-Sul e Sul-Norte.

Requer instituições que possam demonstrar resultados reais e assumir responsabilidades quando fracassarem.

O Banco Mundial deve passar por reformas para ajudar a desempenhar este papel. E precisa fazer isso continuamente a um ritmo cada vez mais rápido. O governo e as instituições públicas tendem a ser mais vagorosos na introdução de mudanças do que as organizações privadas que enfrentam concorrência. Reconhecemos este risco. Para abordá-lo lançamos as reformas mais abrangentes na história de nossa instituição.

Estamos nos reformando para sermos mais legítimos

Um Grupo Banco Mundial modernizado deve representar as realidades econômicas internacionais do século XXI, reconhecendo o papel e a responsabilidade de um número maior de interessados, mas também sua diversidade e necessidades especiais, bem como proporcionar uma voz mais ampla à África.

Ao refletirmos sobre essas necessidades instamos nossos acionistas a manter sua promessa de aprovar neste mês 47% ou mais da propriedade para os países em desenvolvimento.

Mas não vamos parar aí. Em um modelo singular entre as instituições financeiras internacionais, a propriedade das ações será revista cada cinco anos para permitir mudanças baseadas no crescimento econômico contínuo e na evolução de nossos acionistas, tendo como objetivo conseguir a equidade com o correr do tempo. Pela primeira vez a propriedade das ações se baseará em uma fórmula elaborada especificamente para refletir as necessidades e mandatos do Grupo Banco Mundial: não somente refletirão o poder econômico, mas também as contribuições para o nosso fundo destinado aos países mais pobres do mundo.

A gestão de alto nível inclui agora um número recorde de executivos dos países em desenvolvimento, inclusive mulheres. Mas precisamos fazer ainda mais.

Precisamos trabalhar com os países em desenvolvimento como clientes, não como objetos de modelos de desenvolvimento tirados de manuais. Precisamos ajudá-los a solucionar problemas, não testar teorias.

No entanto, os problemas necessitam de recursos para serem solucionados.

Estamos nos reformando mediante o acréscimo de recursos

Desde o impacto total da crise em meados de 2008, o Grupo Banco Mundial destinou mais de US$ 100 bilhões para apoiar os países em desenvolvimento.

Isto bateu todos os recordes históricos. E quero de modo especial agradecer o pessoal do Grupo Banco Mundial que enfrentou este desafio.

Pusemos dinheiro onde era necessitado – rapidamente. Embora o Grupo Banco Mundial tenha sido tradicionalmente mutuante para projetos de longo prazo, nossos desembolsos para o desenvolvimento ultrapassaram os pagamentos do FMI relacionados com a crise.

Quando o Grupo Banco Mundial decidiu enfrentar os perigos, dependemos do uso efetivo e eficaz de recursos disponíveis.

Precisamos de mais recursos para apoiar o crescimento renovado para fazer um multilateralismo modernizado funcionar nesta nova economia multipolar. Se a recuperação falhar, teremos de ficar de fora.

Portanto, o Banco Mundial está procurando o seu primeiro aumento de capital em mais de 20 anos. Os acionistas têm diante de si a decisão de fortalecer o Grupo Banco Mundial ou permitir que diminua sua influência, perdendo uma instituição multilateral eficiente e deixando-a com recursos precários para enfrentar o que vem pela frente.

Além de fornecermos recursos financeiros críticos, demonstramos como o multilateralismo modernizado pode funcionar. Estamos reforçando a cooperação entre 186 países membros.

Mais da metade dos recursos levantados para reforçar nosso capital provém dos países em desenvolvimento por meio de aumento de preços e maiores investimentos de capital. Um acordo a respeito deste pacote de medidas, se bem-sucedido, representaria um caso de sucesso multilateral que contrasta com tropeços recentes em matéria de mudança climática e comércio.

Estamos nos reformando para nos tornarmos mais eficazes, mais inovadores e mais responsáveis

A representação e os recursos por si sós não bastam. Devemos também ser mais eficientes, receptivos, inovadores, flexíveis e responsáveis.

Estamos introduzindo reformas para intensificar nosso enfoque estratégico onde possamos agregar mais valor – focando os pobres e vulneráveis, especialmente a África Subsaariana; a criação de oportunidades de crescimento; a promoção de uma ação global coletiva – por exemplo, mudança climática, agricultura, recursos hídricos e saúde; o fortalecimento da governança; e a preparação para crises.

Estamos introduzindo reformas para modernizar nossos produtos e serviços, promovendo oportunidades de inovação e considerando um novo modelo de descentralização que nos permita aplicar aptidões de vanguarda próximas aos clientes, ao mesmo tempo coletando, personalizando e compartilhando o conhecimento e a experiência em âmbito global. Precisamos ter um alcance global, mas também um toque local.

Estamos introduzindo reformas para focar resultados, fortalecendo nossa governança e iniciativas de anticorrupção, incluindo uma sólida prevenção, e liderando outras instituições internacionais em seus esforços para se tornarem mais transparentes e responsáveis. Temos uma nova política de acesso à informação, baseada nas leis de liberdade de informação da Índia e dos Estados Unidos, que será a primeira – mas esperamos que não seja a última – de seu tipo entre as instituições internacionais. Estamos lançando uma nova política de acesso aberto aos dados do Banco Mundial. Na semana passada celebramos um acordo com outros bancos multilaterais de desenvolvimento sobre a exclusão cruzada de indivíduos e empresas corruptos.

E estamos lançando um cartão de pontuação corporativo para sermos ainda mais responsáveis.

Sabemos que cometemos erros; se superar a pobreza fosse fácil, ela já teria sido eliminada há muito tempo. Ao abrirmos as persianas para outros verem o que estamos fazendo, como estamos agindo e o resultado de nossas ações, detectaremos erros e melhoraremos com maior rapidez.

Tomadas em conjunto, estas reformas são transformacionais. Este não será mais o Banco Mundial de nossos avós. Não será nem mesmo o de nossos pais.

Conclusão

A reforma não pode ser um fato isolado. Deve ser uma constante – adaptação e readaptação – com ciclos contínuos de feedback para enfrentar as realidades em transformação.

Não podemos prever o futuro com certeza. Mas podemos antecipar as orientações – e uma delas é o fato de uma economia global multipolar se assomar no horizonte.

Não há distorção, não há vislumbre. Ainda vivemos em um mundo de Estados-nação. Mas agora há mais Estados exercendo influência em nosso destino comum. São Estados desenvolvidos e em desenvolvimento que se estendem por todas as regiões do globo. Tudo isso tem um aspecto positivo. No entanto, os contornos desta nova economia multipolar ainda estão em formação. Precisam adquirir forma.

O sistema multilateral moderno deve enquadrar-se nessas mudanças.

O multilateralismo moderno deve ser prático. Deve reconhecer que a maior parte da autoridade governamental ainda reside nos Estados-nação. Mas muitas decisões e fontes de influência circulam ao redor, através e além dos governos.

O multilateralismo moderno deve introduzir novos atores, construir cooperação entre atores antigos e novos e utilizar os recursos das instituições globais e regionais para ajudar a enfrentar ameaças e aproveitar oportunidades que transcendem as capacidades de cada Estado individualmente.

O multilateralismo moderno não será um clube limitado no qual poucos entram e a maioria fica de fora. Terá mais a aparência da expansão global da Internet, interligando um número cada vez maior de países, empresas, indivíduos e ONGs por meio de um rede flexível. Instituições multilaterais legítimas e eficientes, apoiadas por recursos e capazes de produzir resultados, podem formar um tecido interconectado, permeando toda a arquitetura estrutural deste sistema multipolar dinâmico.

Woodrow Wilson queria uma Liga de Nações. Nós precisamos de uma Liga de Redes.

É chegado o momento de deixar para trás os antigos conceitos de Primeiro e Terceiro Mundos, de dirigentes e dirigidos, de doadores e suplicantes.

Precisamos apoiar o surgimento de múltiplos polos de crescimento que possam ser benéficos a todos.

 

 

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