REPORTAGEM

Sob a aparência alegre, a América Latina também sofre de depressão

7 de abril de 2017


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A maioria das pessoas que sofrem de depressão está em idade produtiva

Maria Fleischmann / Banco Mundial

Depressão, ansiedade severa e outros distúrbios mentais afetam 22,4% da população regional

Na superfície, a sociedade latino-americana se mostra alegre, sorridente e trabalhadora, mesmo nos momentos difíceis.

 

As estatísticas sobre saúde mental na região, no entanto, revelam outro cenário: por motivos que ainda precisam ser mais estudados, 22,4% da população, ou pouco mais de uma em cinco pessoas, sofre com distúrbios mentais como depressão e ansiedade severa. Em países como Brasil e Paraguai, cerca de 10% dos anos vividos com incapacidade se devem a essas doenças, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

De fato, tanto na América Latina quanto no resto do mundo, o impacto dessas enfermidades sobre as pessoas e a economia é significativo. Tanto que as Nações Unidas escolheram “Depressão: vamos conversar” como tema do Dia Mundial da Saúde, celebrado hoje. Mais de 300 milhões de pessoas vivem com a doença.

A OMS chama a atenção para a falta de apoio àqueles que enfrentam transtornos mentais. Mesmo no mundo desenvolvido, quase 50% das pessoas com depressão não recebem tratamento. Em média, apenas 3% dos orçamentos de saúde dos governos são investidos em saúde mental, variando de menos de 1% nos países de baixa renda a 5% nos ricos.

Curiosamente, investir em saúde mental é altamente vantajoso quando se comparam o custo e o benefício das ações nessa área. O gasto anual é estimado em apenas US$ 2 per capita para os países mais pobres do mundo e US$ 7 a US$ 9 para a América Latina e Caribe, por exemplo. Em contrapartida, cada dólar investido na ampliação do tratamento para depressão e ansiedade leva a um retorno de US$ 4 em saúde e capacidade de trabalho da população.

Essa e outras facetas da questão foram discutidas em um painel promovido pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS), com participação dos especialistas Patricio Márquez, do Banco Mundial; Daniel Vigo, da Universidade de Harvard; e Pamela Collins, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA.

O encontro também discutiu as seguintes formas de ampliar a atenção de saúde mental no mundo em desenvolvimento. 

1 - Buscar paridade entre o atendimento de saúde fisica e mental

“Não há separação entre doença física e mental; não é mais possível encarar a depressão de forma diferente de uma enfermidade de coração”, defendeu Márquez. Para ele, é preciso que as autoridades garantam por meio de leis e regulações acesso a tratamentos tanto no sistema público quanto no privado. Essa abordagem busca ajudar a sociedade a superar o estigma ainda existente com relação aos portadores de distúrbios mentais. Também tem o objetivo de fortalecer a adesão aos tratamentos, segundo o especialista.


" Mesmo no mundo desenvolvido, quase 50% das pessoas com depressão não recebem tratamento "

2 – Gerar novos recursos para prevenção e tratamento

Países como Botsuana, Colômbia, Estados Unidos e Filipinas aumentaram os impostos sobre o cigarro como uma medida para diminuir os riscos que ele causa à população. E, ao mesmo tempo, levantar novos recursos para financiar os serviços de saúde integrados, incluindo ações essenciais de saúde mental. Essa política pública pode ser replicada tanto nos países em desenvolvimento quanto nos desenvolvidos.

3 – Levar saúde mental aonde as pessoas estão

Como a maior parte das vítimas da depressão está em idade produtiva e passa a maior parte do tempo no local de trabalho, nada é mais adequado que levar serviços de saúde mental e apoio psicossocial a esses locais. É importante dar prioridade a ações de prevenção de doenças e dependências químicas, segundo Márquez. 

4 – Usar as tecnologias da informação e comunicação

Mensagens de texto, redes sociais, aplicativos e outras ferramentas podem levar informações e serviços a populações vulneráveis e de difícil acesso, bem como para apoiar profissionais de saúde mental que trabalhem com pequenas comunidades. Para expandir o uso dessas tecnologias e desenvolver conteúdos adequados, é fundamental que governos, academia, especialistas em tecnologia e saúde trabalhem em conjunto com as pessoas afetadas por distúrbios mentais.

5 – Aproveitar as atuais crises para desenvolver novos serviços

As crises causadas por conflitos armados, violência, epidemias ou desastres naturais devem ser vistas como uma oportunidade para avançar na construção de sistemas integrados de saúde que respondam às necessidades físicas e mentais das populações refugiadas, bem como dos moradores dos países que acolhem essas pessoas.


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