REPORTAGEM

América Latina: um novo começo depois do fim da bonança

15 de Abril de 2015


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América Latina deve crescer apenas 0,8% em 2015

Banco Mundial

A desaceleração da economia chinesa e a queda nos preços das commodities representam novos desafios para uma região que não descuida de suas conquistas sociais

As manchetes da imprensa latino-americana falam cada vez mais do “fim da festa”, do “fechamento de um ciclo de bonança”, da “desaceleração depois do auge” da região.  

Isso porque, depois de um grande período de auge, impulsionado pela alta no preço das matérias-primas e pelo crescimento da China – que contribuíram para o melhor desempenho da região nos últimos 40 anos –, as cifras mostram que de fato a festa terminou. De 4% (em 2011), o crescimento médio da região caiu para cerca de 1% em 2014. E deve ser de apenas 0,8% em 2015.

De onde surge a pergunta: se a América Latina viveu um excelente período de crescimento, não era óbvio que a festa ia acabar em algum momento? E o que foi feito durante essa fase para tornar a economia mais competitiva e menos dependente dos preços das matérias-primas?

Esses foram alguns pontos de discussão da apresentação do relatório “A América Latina trilha um caminho estreito para o crescimento: a desaceleração e seus desafios macroeconômicos”, realizada em Washington, por Augusto de la Torre, economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe. O evento foi transmitido pela internet por meio da plataforma Banco Mundial Ao Vivo e pelos sites do El País América, RPP (Peru) e El Financiero, do México.

“A região poderia ter feito muito mais reformas, claro, mas isso não quer dizer que ela não tenha aproveitado o momento do boom”, ressaltou Augusto de La Torre.

“Em primeiro lugar, a região usou o período de 2003 a 2008 para melhorar seus modelos de política macroeconômica. A região como um todo está menos vulnerável a choques macroeconômicos e financeiros”, acrescentou.

De La Torre também destacou que, embora a região ainda esteja bastante dependente de commodities, seu modelo de exportações é muito diferente do que existia até os anos 1980. Os processos de produção agrícola e mineral se aprimoraram tecnologicamente e se conectaram melhor com as economias locais. Portanto, beneficiam de forma concreta os produtores e os demais cidadãos.

“Lamentavelmente, o tempo de bonança não foi o bastante para que as reformas voltadas ao crescimento fossem feitas em meio a um contexto mais favorável”, completou Samuel Pienknagura, coautor do estudo.

“Sem contar que muitas dessas mudanças demoram a fazer efeito. É por isso que, apesar de alguns países terem criado e implementado agendas voltadas ao crescimento, ainda não é possível ver os frutos das reformas.”

O informe teve bastante repercussão nas redes sociais. Alguns participantes, como o economista mexicano Rodrigo Aguilera, enfatizaram que 2015 será um ano decisivo para seus países. “As grandes expectativas econômicas do atual mandato presidencial se mostram cada vez menos realistas”, tuitou. Outros, como @Conocimiente, deram sugestões: “Vamos recuperar o crescimento quando os governos criarem condições para o surgimento de empreendedores”. 



" Talvez este seja o momento mais apropriado para fazer as reformas educativas, para melhorar o que for possível na infraestrutura "

Augusto de la Torre

Economista chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe


Educação e competitividade

Além de fazer algumas reformas – embora com menos profundidade do que o esperado –, a América Latina usou o momento de boom econômico para fazer avanços sociais, algo que não pode ser ignorado, dizem os autores.

Cerca de 70 milhões de latino-americanos deixaram de ser pobres e 50 milhões se juntaram à classe média na última década. Se, nos anos 1990, 50% da população regional era pobre e 20%, de classe média, hoje esse percentual se inverteu: os pobres somam 25%, enquanto os de classe média totalizam 34%. A nova classe média latino-americana é uma grande conquista e também o principal motivo de preocupação entre os autores.

“Não creio que esse câmbio estrutural vá se reverter, mas o ritmo de progresso tende a desacelerar e frear. Dada a atual situação, talvez no futuro consigamos restabelecer um crescimento médio entre 2% e 2.5%, mais ou menos, mas isso ainda não é o suficiente para garantir o progresso social da região”, comentou Augusto de La Torre

O relatório mostra que é bastante improvável a China conseguir viver de novo o boom de crescimento visto na primeira década do século 21. É igualmente impossível que os preços das commodities se recuperem rapidamente.

Novas bases

Mas, embora seja difícil neste momento voltar a crescer como na década passada, a América Latina ainda tem condições de se adaptar para se tornar competitiva.

Isso passa por uma série de reformas para tornar a arrecadação de impostos e o gasto público mais eficientes, de modo a aumentar a taxa de poupança, por exemplo. Atualmente, as taxas de poupança na América Latina estão cerca de 10 pontos percentuais abaixo dos indicadores da Ásia.

Segundo os autores, o momento ainda é propício para realizar um ajuste fiscal que não prejudique os programas sociais da região. E, finalmente, recomendam ajustar a educação dos latino-americanos às necessidades produtivas, para formar trabalhadores e empregos de mais qualidade. 

“Talvez seja este o momento mais apropriado para fazer as reformas educativas, para melhorar o que for possível na infraestrutura, enfim, tenho a impressão de que esses serão os temas centrais de debate na região nos próximos 10 anos”, avaliou De La Torre.

Como dizem as manchetes da imprensa, a festa latino-americana pode até ter acabado, mas nem por isso se esgotou a possibilidade de promover um crescimento econômico fundado em novas bases, inclusive bem mais sólidas do que as anteriores. 


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