REPORTAGEM

Na América Latina, não aproveitar o lixo é um desperdício

18 de Dezembro de 2013


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Para especialistas, os aterros sanitários da América Latina representam milhares de dólares jogados, literalmente, no lixo. 


EM DESTAQUE
  • Iniciativas de reciclagem reduzem o custo da manipulação de resíduos e melhoram o meio ambiente

Um latino-americano produz em média entre um e 14 quilos de lixo por dia, isto é, até um quinto do peso médio de uma pessoa. Ao todo, trata-se de 430.000 toneladas diárias de resíduos sólidos, o suficiente para encher várias vezes estádios como o Maracanã (no Rio de Janeiro) ou o Azteca (no México) e pôr a prova qualquer sistema de reciclagem e desperdício.

Para botar em perspectiva, na Bolívia cada pessoa gera meio quilo de lixo por dia, enquanto em Trinidad e Tobago são 14 quilos per capita. Os números do desperdício são 60% maiores do que os de 18 atrás, mas ainda estão distantes do que acontecerá dentro de 10 anos, quando o mundo verá essa cifra quase duplicar, de acordo com estudos do Banco Mundial.

Para muitos especialistas, os aterros sanitários que abundam na região são milhares de dólares jogados, paradoxalmente, ao lixo. Quando separado na origem, ao redor de 90% poderia ser convertido em combustível ou reciclado. Quando não, só 30% podem ser destinados a outros usos.

Ainda que a América Latina esteja entre as regiões mais atrasadas na reciclagem de lixo, começa a somar alguns esforços para dar aos resíduos uma destinação que seja benéfica tanto ao meio ambiente quanto ao bolso.

Um exemplo é a experiência de Ecofrigo no México, que pediu para as pessoas devolverem refrigeradores velhos às lojas e, em troca, ofereceu um pagamento. Assim eles são destruídos ecologicamente e se evita que o gás escape à atmosfera e contribua com o efeito estufa.

Os aterros sanitários de Monterrey (México) ou de Callao (Peru) extraem o biogás que se forma a partir do lixo em decomposição para produzir energia. Apenas no aterro de Callao, conseguem-se reduzir as emissões de CO2 em 61.024 toneladas ao ano, pegada de carbono equivalente a 112 voos de Lima a Bogotá.

O Brasil, que figura entre os dez maiores consumidores de tablets, está buscando uma solução para recuperar o ouro, o cobre e a prata dos resíduos tecnológicos. Calcula-se que até 90% de um aparelho eletrônico sejam recicláveis.



" A quantidade de lixo produzida na região é suficiente para encher várias vezes estádios como o Maracanã (no Rio de Janeiro) ou o Azteca (no México) "

Lixo "verde" na Argentina

Mar del Plata, na costa Atlântica da Argentina, se destaca em matéria de gerenciamento integral de resíduos sólidos, o que consiste em tratar o lixo desde que se gera nos lares até quando chega a um aterro (ou se recicla).

À diferença de outros destinos turísticos, a “Pérola do Atlântico” faz um esforço extra para que os quase quatro milhões de visitantes que chegam para a temporada de verão adotem um costume que mais de 70% dos vizinhos marplatenses têm como própria: separar os resíduos.

“Acho que é fundamental gerar uma consciência ambiental de que todo recurso é finito e vai depender do que possamos fazer hoje”, diz Esteban Emiliano, que vive com a mulher e quatro filhos em Mar del Plata.

Durante os meses de verão gera-se 50% a mais de lixo, superando as 900 toneladas de resíduos diários. Para isso, em algumas ruas e nas praias se colocam cestos duplos com um contentor verde para os resíduos de vidro, papel, cartão, metal e plástico secos, e um contentor negro para resíduos úmidos e restos orgânicos.

Isso vai a um aterro sanitário que, segundo as autoridades, não contamina o exterior, já que os gases são tratados e o líquido é drenado e filtrado para logo ser utilizado em diversas atividades (irrigação de áreas verdes, por exemplo).

Dar um papel às comunidades na reciclagem de desperdícios é a chave, segundo os especialistas. Não só cria consciência, mas também ajudará a aliviar o custo da manipulação dos resíduos, que quadruplicará nos países em desenvolvimento em 2025.


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