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OPINIÃO 30 de Novembro de 2020

Pesquisa mostra que o impacto inicial da pandemia nos pequenos negócios foi forte, mas há motivos para esperar uma pronta retomada

A pandemia da COVID-19 e as medidas preventivas de distanciamento social geraram um choque sem precedentes sobre o setor privado no Brasil e no mundo, ameaçando o crescimento presente e futuro do país, o emprego formal, e a redução da pobreza e da desigualdade. Esse choque tem impactado as empresas simultaneamente por vários canais.

O primeiro canal é um choque negativo sobre o consumo final, acentuado pelas restrições impostas pelo confinamento, que pode perdurar ao longo do tempo em alguns setores devido ao receio dos consumidores.

O segundo é um choque pelo lado da oferta; com redução na disponibilidade de mão de obra e uso de infraestrutura física, uma vez que algumas empresas tiveram quer permanecer fechadas durante o lockdown, trabalhadores foram afastados por motivo de doença, fechamento de escolas ou creches ou restrições relacionadas à sua mobilidade.

As empresas também estão enfrentando escassez de insumos e matérias primas que podem acarretar na diminuição do seu faturamento. O terceiro canal está relacionado com a forte incerteza econômica que pode gerar menos investimentos correntes e menor propensão dos investidores para realizar investimentos em inovação e capacidade produtiva.

Para medir esses impactos, o Banco Mundial está realizando a pesquisa Business Pulse Survey em 51 países em todas as regiões do mundo, sendo 26 com o mesmo questionário. O esforço resultou na entrevista a mais de 100.000 negócios. No Brasil, a pesquisa está sendo implementada nos estados de Ceará e São Paulo. No estado de São Paulo, mais de 1500 pequenos negócios – MEI, micro e pequenas empresas - foram consultados em parceria com o SEBRAE-SP. Nesta coluna destacamos os resultados do choque inicial que foram medidos em duas rodadas da consulta em junho e julho.     

Como era de se esperar, o impacto negativo foi forte e com maior força nas MEIs e nas empresas do setor de serviços. O choque inicial representou uma queda média de 53% no faturamento das empresas. Em termos comparativos, e considerando 44 países com dados disponíveis, o Brasil está em vigésimo sexto lugar com queda média no faturamento inferior a países dos BRICS, como a África do Sul e a Índia, e também à maioria dos países da África, mas com queda superior aos países da Europa. Comparando regionalmente, o impacto no Brasil é próximo do observado em países como Guatemala, Honduras ou El Salvador, e menor que o México, país que apresentou uma redução média de -56% do faturamento.

O impacto negativo foi mais forte sobre o faturamento nas empresas lideradas por mulheres. A variação média do faturamento apresentou uma diferença de 9 pontos percentuais entre as empresas lideradas por mulheres e homens, mesmo controlando por características observáveis da empresa como porte, setor, região e idade.  Já o impacto sobre o emprego e a probabilidade de ficar fechadas no início da pandemia foi similar entre empresas lideradas por homens e mulheres. Isso significa que apesar de estarem associadas a um choque maior em faturamento, empresas lideradas por mulheres foram mais resilientes, na média, do as empresas similares lideradas por homens; provavelmente devido a uma diferente abordagem em termos de gestão.

A análise indica também alguns elementos positivos que antecipam uma retomada econômica potencialmente mais rápida e sustentável. Por exemplo, entre as empresas que permaneceram ativas no mês de julho, e ajudado pela Medida Provisória 936, constata-se, que a maioria delas conseguiu manter os funcionários durante os primeiros meses da pandemia com ajustes em salários e horas trabalhadas, o que permitiu conter as demissões em larga escala até o momento.

Além disso, o choque da pandemia tem acelerado a digitalização das empresas em diferentes níveis, necessários para facilitar processos automatizados e operações, e que permitem contornar restrições de distanciamento social. Cerca de 20% das empresas relataram ter começado a usar a internet em suas operações e 60% das empresas relataram ter aumentado o uso. Essas são taxas muito elevadas de adoção e uso de ferramentas digitais, em comparação com a média global de 8% que começaram a usar e 22% que aumentaram o uso. 

Como esperado, o uso principal dessas ferramentas foi majoritariamente  nas áreas de marketing (70%) e vendas (56%) Além disso, 32% das empresas digitalizaram as entregas de produtos e serviços, 29% das empresas digitalizaram partes da gestão do negócio, e 25% as formas de pagamento. Essa aceleração da transformação digital pode aumentar a produtividade da economia. 

A análise mostra que apesar da alta demanda e dos esforços das autoridades em disseminar os programas de apoio empresarial lançados, em julho 26% das empresas da amostra ainda não conheciam nenhuma medida de apoio disponível, e dentre as empresas que conheciam pelo menos uma política existente, 66% não haviam acessado nenhuma delas. Em particular, a participação de empresas MEIs é significativamente menor.

Apesar de alto, esse índice é ainda melhor que o indicado pela experiência global, que mostra que a metade das empresas tem desconhecimento das políticas públicas disponíveis.

Com as próximas rodadas de consultas realizadas em outubro e dezembro teremos um panorama mais completo dos impactos dessa crise e a retomada nos pequenos negócios. Esso permitirá avaliar o contexto da retomada econômica e o desenho e implementação de políticas públicas que ajudem os pequenos empresários brasileiros.

Esta coluna foi escrita em colaboração com Xavier Cirera, economista sênior do Banco Mundial no Brasil, e coautor do relatório "Tomando o Pulso do Setor Privado: O Choque a Curto Prazo da COVID-19 nos Pequenos Negócios no Estado de São Paulo."

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