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Ébola: O impacto económico a Longo Prazo poderá ser Devastador

Último número: 
  • 17 de Setembro, 2014


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Libéria, Agosto 2014.

Ahmed Jallanzo, UNICEF

DESTAQUES DO ARTIGO
  • Um novo relatório do Banco Mundial descreve os impactos económicos, a curto e médio prazos, da epidemia de Ébola na África Ocidental
  • A crise pode custar a Guiné, Libéria e Serra Leoa USD 809 milhões até 2015
  • Os países e seus parceiros devem juntar-se rapidamente para inverter o comportamento de rejeição que esta a trazer prejuízos económicos

WASHINGTON, 17 de Setembro, 2014—A epidemia de Ébola na África Ocidental já ceifou as vidas de quase 3 000 pessoas, desde Janeiro 2014. Para além de vidas perdidas, esta doença representa um severo golpe económico para as famílias e os governos. Fronteiras encerradas e farmas abandonadas estão a provocar aumentos  dos custos dos alimentos, levando a fome  muitas comunidades rurais. As despesas de emergência com serviços de saúde estão a pesar nos orçamentos, já muito reduzidos, dos governos. A epidemia pode inverter anos de ganhos económicos conseguidos por países nesta área do mundo, que está ainda em desenvolvimento.


" As estimativas originais de crescimento na Guiné foram reduzidas a metade, de 4,5% para 2,4%, em resultado da doença "

Um novo relatório do Banco Mundial define os custos que, a curto a médio prazo, a crise do ébola poderá provocar nos três países mais severamente afetados – Guiné, Libéria e Serra Leoa – se esses países e os seus parceiros não efectuarem imediatamente todos os esforços para conter o surto da doença. Estimativas do impacto nos três países para 2015 situam-se entre USD 97 a USD 809 milhões. .

Guiné

O impacto é já evidente na Guiné, Libéria e Serra Leoa, os três países com números mais elevados  de casos de ébola. As estimativas originais de crescimento na Guiné foram reduzidas a metade, de 4,5% para 2,4%, em resultado da doença. Já incluída entre os mais pobres países da África Ocidental, com uma população de 12 milhões, a Guiné tem sofrido enormes  perdas na sua indústria agrícola. O êxodo de trabalhadores rurais já tem por resultado uma baixa nas exportações dos produtos principais, como o cacau e óleo de palma.

Serra Leoa

A Serra Leoa, que parecia navegar no sentido de atingir o estatuto de País de Rendimento Médio, com um crescimento anual de 11,3%, poderá  ver esse crescimento reduzido para apenas 8% em 2014 e zero em 2015. A epidemia já se espalhou, poupando apenas um dos seus 13 distritos e contando com quatro médicos e 30 enfermeiros entre os mortos. O país está destroçado pelas restrições às viagens internacionais, o encerramento de mercados, perturbação das atividades agrícolas e uma redução nas tão essenciais atividades mineiras, em resultado da fuga de trabalhadores estrangeiros receosos de contraírem o ébola.

Libéria

A Libéria é, no momento, o país mais afetado pela crise do ébola. O vírus espalhou-se rapidamente. As taxas de infecção crescem e as mortes continuam a subir. De acordo com o relatório: “Os maiores efeitos económicos da crise não são os custos diretos (mortalidade, morbidade, cuidados a prestar, e as perdas de dias de trabalho que provocam)”, refere o relatório, “mas antes aqueles que resultam de alterações de comportamento – ditadas pelo medo – e que provocam geralmente numa menor procura de bens e serviços e, consequentemente, menor rendimento das famílias e menor emprego.”

O país poderá registar taxas negativas de crescimento em 2015, se o ébola não for rapidamente contido – devido ao impacto do encerramento de uma das duas principais empresas mineiras, em resultado da epidemia, e pelas perturbações causadas às diversas atividades agrícolas. O setor dos serviços também foi afetado. A entrada de voos comerciais na Libéria viu-se reduzida de 27 voos por semana a apenas seis. Alguns hotéis têm relatado taxas de ocupação que caíram para os 10%, fazendo com que muitos trabalhadores hoteleiros perdessem os seus empregos.

Até ao presente, os países vizinhos têm tido escassos impactos económicos em resultado da epidemia, mas isso poderá mudar se não forem rapidamente tomadas medidas para conter a doença e prevenir a sua passagem além-fronteiras, avisa o relatório. Entre os países que poderão ser afetados contam-se a Nigéria, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Senegal e a Gâmbia.

O impacto global do ébola é evidente em duas áreas distintas, explica o relatório. Em primeiro lugar, os efeitos diretos e indiretos da doença e da morte. Em segundo, os efeitos comportamentais resultantes do medo de uma epidemia em progressão, o que, por sua vez, leva ao receio de interagir com outras pessoas, fecha os locais de trabalho, desorganiza os transportes e, por força do pânico, faz com que governos e negócios fechem os portos e aeroportos.


" No seu conjunto, a resposta humanitária, o apoio orçamental, o investimento em ligações seguras de transporte e uma maior vigilância da doença, e a capacidade de tratamento, não só estancarão a epidemia de ébola, como ajudarão a inverter, tão depressa quanto possível, o comportamento de repulsa que está a causar enormes danos económicos. "

Limitar os custos humanos e os impactos económicos do Vírus do Ébola exigirá recursos financeiros significativos, coordenação entre parceiros internacionais e os países afetados e muito empenho e dedicação.

O relatório recomenda as seguintes medidas:

  • Apoio aos esforços humanitários para financiar equipamento médico, unidades de tratamento de emergência e os salários do pessoal;
  • Ajudar os países a colmatar a brecha orçamental de USD 290 milhões em 2014 e continuar a fazê-lo à medida que essa brecha continuará a crescer em 2015;
  • Fornecer infraestruturas e financiamento às ligações internacionais de transporte dos países;
  • Reforçar as capacidades de vigilância, deteção e tratamento dos sistemas de saúde africanos.

“No seu conjunto,” diz o relatório, “a resposta humanitária, o apoio orçamental, o investimento em ligações seguras de transporte e uma maior vigilância da doença, e a capacidade de tratamento, não só estancarão a epidemia de ébola, como ajudarão a inverter, tão depressa quanto possível, o comportamento de repulsa que está a causar enormes danos económicos.”