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REPORTAGEM

Empresas e hackers investem em soluções contra o trânsito de São Paulo

3 de março de 2014

A Avenida Paulista, uma das vias que se paralisam quando chove em São Paulo

DESTAQUES DO ARTIGO
  • Criatividade e tecnologia ajudam a aliviar o estresse dos deslocamentos diários para ir ao trabalho

Quando se pergunta a um morador de São Paulo quanto tempo ele leva para sair da garagem do trabalho e alcançar o sinal mais próximo – ou, caso saia de ônibus, quantos minutos espera –, a resposta é longa e carregada de queixas.

A discussão vai além das horas perdidas no trânsito: é também socialmente sensível. Os preços e a qualidade do transporte público alavancaram os protestos vividos no Brasil durante a Copa das Confederações, em junho do ano passado.

Os 11 milhões de habitantes da megalópole, a maior da América do Sul, usam diariamente 7,5 milhões de veículos (entre ônibus, carros, caminhões e motos). Todos se espremem em pistas já saturadas, com expansão lenta e cara.

As obras de mobilidade prometidas para a Copa do Mundo, por exemplo, estão atrasadas desde outubro de 2012 e custarão R$ 54 milhões a mais do que o planejado. Uma delas só ficará pronta depois dos jogos.

Duas experiências, no entanto, mostram que o déficit de infraestrutura pode ser ao menos parcialmente compensado com criatividade e tecnologia.

Onde está o ônibus?

Na mais recente delas – um concurso de aplicativos para celular –, 60 hackers criaram 15 softwares para ajudar moradores e visitantes a andar de ônibus com mais facilidade. Para isso, usaram dados recém-abertos pela empresa municipal de transportes.

“Os aplicativos tinham de permitir que os cidadãos monitorassem e avaliassem os ônibus em tempo real, além de funcionar bem e ser facilmente replicáveis”, lembra o mexicano Diego Canales, especialista em transportes no Banco Mundial e jurado na competição.

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Entreguei o cartão de estacionamento e hoje a empresa custeia a van que me traz todos os dias. Além de economizar, venho tranquilo Close Quotes

Marcos Jacobina

Venceu o projeto com o sugestivo nome de “Cadê o Ônibus?”, que apresenta – em diversos idiomas – rotas, locais e horários de parada, e dados sobre o trânsito, bem como alertas de chegada do veículo.

Além disso, o aplicativo permite ao usuário informar sobre a lotação do ônibus ou outros problemas em tempo real. Quem tem celular com sistema Android já pode baixar o aplicativo de graça na Play Store; uma versão para iPhone estará disponível em breve.

“Com essas e outras características, os apps ajudam a dar mais transparência e a melhorar a qualidade de um serviço que virou o estopim para os protestos iniciados no Brasil em junho do ano passado”, acrescenta Canales.

Deixando o carro de lado

O gerente de produto Marcos Jacobina, 62 anos, há tempos não pega ônibus para chegar ou sair do trabalho. Em compensação, perdeu as contas do tempo gasto entre o estacionamento do serviço e a pista da Avenida Luís Carlos Berrini, uma das mais congestionadas de São Paulo. Entre os carros que circulam nos horários de pico, 53% transportam só uma pessoa (no resto da cidade, a média é de 31%).

“Já levei até 45 minutos para dirigir nesse pequeno trajeto, sem contar o tempo até a minha casa, a 50km da capital”, lembra. A irritação, no entanto, foi embora quando o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) – empregador de Jacobina – aderiu a um projeto para dar alternativas de deslocamento aos trabalhadores dessa região.

Dez empresas, com um total de 1.500 funcionários, investiram em horários flexíveis ou home office, por um lado. Por outro, passaram a dar incentivos financeiros a quem deixasse o carro em casa para vir de transporte público, veículos fretados, bicicleta ou carona.

“Entreguei o cartão de estacionamento, com o qual gastava R$ 600 por mês, e hoje a empresa custeia os R$ 300 mensais da van que me traz todos os dias. Além de economizar, venho tranquilo, lendo jornal ou respondendo e-mails. Só precisei começar a chegar e sair mais cedo”, explica Jacobina.

Com o projeto, o percentual de trabalhadores que dirigem caiu de 53% para 50%. O uso de transporte público, por sua vez, passou de 29% para 31%. E a utilização de veículos fretados aumentou de 6% para 10%.

“A mudança pode parecer pequena, mas é sintomática, considerando que se trata de um projeto voluntário. Quando observamos os números das empresas individualmente, percebe-se que há resultados muito mais expressivos quando a direção da companhia se envolve no projeto”, avalia a especialista em políticas públicas Andréa Leal, consultora do projeto no Banco Mundial.

Quatro empresas já participam da segunda fase da iniciativa, que ficou a cargo da ONG World Resources Institute.

Para os especialistas, ambas as iniciativas ainda têm a vantagem de ser facilmente adaptáveis a outras cidades e regiões globais com problemas de trânsito. Na América Latina, por exemplo, perdem-se (em média) entre três e quatro horas diárias no trajeto casa/trabalho/casa, em deslocamentos que chegam a custar o equivalente a duas horas de salário.