REPORTAGEM

Entrevista - América Latina e o ciclo “hidro-ilógico” das secas

12 de dezembro de 2013

Donald Wilhite é reconhecido como o maior especialista global em política e gestão da seca. 

DESTAQUES DO ARTIGO
  • A região busca fórmulas contra um fenômeno que tem consequências diretas no cotidiano de milhões de pessoas.
  • Em muitos países, nem a população nem os políticos veem a necessidade de se preparar para a próxima seca.
  • Para ajudar a romper esse ciclo no Brasil, um projeto piloto do Banco Mundial implantará o primeiro sistema nacional de monitoramento constante da seca.

Se você frequentou direito as aulas de geografia, provavelmente se lembrará da expressão ciclo hidrológico, formado por evaporação, precipitação e escoamento da água. Pois chegou a hora de conhecer o ciclo hidroilógico, expressão bem-humorada usada pelo climatologista americano Donald Wilhite para descrever a maneira como muitos países ainda lidam com as próprias secas.

Wilhite, reconhecido como o maior especialista global em política e gestão da seca, descreve o pânico como a primeira etapa do círculo vicioso. Em seguida vem a chuva e, com ela, a apatia: nem a população nem os políticos veem a necessidade de se preparar para a estiagem seguinte. Mas, quando as secas se repetem, despertam novamente a preocupação e o pavor de quem não se planejou.

O professor da Universidade de Nebraska-Lincoln quer ajudar a quebrar esse ciclo no Brasil. Ele atualmente trabalha com o Banco Mundial no projeto piloto do primeiro sistema nacional de monitoramento constante de secas, a ser operado no Ceará, um dos estados mais secos do nordeste do país. “Com dados, é possível tomar decisões melhores e isso ajuda no enfrentamento”, diz.

Também convidado pelo Banco, Wilhite vem dando uma série de workshops para os governos do Brasil e de outros países latino-americanos. Ele deu a seguinte entrevista depois de uma concorrida palestra em Brasília.

Em outras ocasiões o senhor veio ao Brasil para participar de encontros com o governo, mas disse que nada foi feito. Por que se sente otimista mesmo assim?

A primeira vez que vim foi em 1986, e desde então voltei umas 10 vezes, dando palestras, conferências, etc. Investi no Brasil e obviamente gostaria de ver progressos. Estou otimista agora porque os esforços são mais amplos do que há um tempo e envolvem não só um ou dois estados. Trata-se de um processo regional, com mais ministérios envolvidos no trabalho, então parece haver força para mudar. Além disso, acho que há mais conhecimento sobre o assunto e a capacidade dos governos é melhor do que há 10 ou 20 anos.

A América Latina também melhorou nesses aspectos?

Sim. O México, por exemplo, sofreu com algumas secas graves nos últimos anos. E quando o novo presidente (Peña Nieto) tomou posse, em dezembro de 2012, foi convencido de que precisava desenvolver um programa contra as secas. Deu esse desafio à Comissão Nacional de Água (Conagua) e desde então o país tem agido com determinação. No workshop que fiz semana passada em Fortaleza, vi que muitos países latino-americanos e do Caribe têm interesse por histórias assim. É bom ver como países com regimes climáticos diferentes estão se unindo e vendo que precisam lidar com a seca de uma maneira nova.

Quanto tempo o senhor acha que levaria para o Brasil desenvolver e implementar uma estratégia coordenada de combate à seca?

Não é algo a ser feito da noite para o dia. Em seis meses, se houver vontade, é possível rascunhar uma política em reuniões com os ministérios e outras partes interessadas. É preciso tempo para integrar tanta gente e fazer com que todos entendam o problema. E mais tempo ainda para desenvolver as ferramentas de ação. Por exemplo, desenvolver o sistema de monitoramento de secas do Nordeste é algo demorado, mas possível.

O senhor usa muito o termo “janela de oportunidade” quando se refere às secas. O que é isso, exatamente?

Quando ocorre uma grande seca, os formuladores de políticas públicas precisam ficar atentos. Nesse momento, eles estão numa melhor posição para fazer mudanças no planejamento e avaliar como podem gerenciar seus recursos de forma preventiva. Os eventos extremos (secas, cheias, etc.) tendem a aumentar com as mudanças climáticas, e o custo deles é altíssimo. Simplesmente reagir a eles custa caro e traz consequências ruins demais não só para as pessoas, mas para vários setores econômicos. 

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Donald Wilhite
Climatologista

Como outros países estão usando essa janela de oportunidade?

No México, por exemplo, o Conagua vem promovendo a ideia de preparação contra os efeitos da seca. Antigamente, esse não era um tema interessante para os presidentes. Mas houve uma eleição, especialistas no tema se aproximaram dos assessores do Peña Nieto e disseram ‘Esse é um tema fundamental para o presente e o futuro’. O presidente concordou e lançou um programa. Essa é uma janela de oportunidade, porque um novo presidente está buscando chances de mudança e de fazer algo melhor pelo país. E o México já se voluntariou para ajudar o Brasil. O Uruguai terá eleições em 2014, e aí existe uma oportunidade de abordar o presidente eleito para dizer ‘Isso é algo que o nosso país precisa fazer, outros países já começaram’. É possível aprender com todas essas experiências.

O Brasil também terá eleições no ano que vem.

Se a presidente Dilma for reeleita, terá a oportunidade de tomar uma série de decisões importantes. Pelo que soube, o gerenciamento das secas não era particularmente uma prioridade para ela, mas é interessante ver como determinados eventos (a grande seca dos dois últimos anos, por exemplo) fazem o tema ganhar nova relevância. E no segundo mandato, quando os políticos já não se preocupam em se reeleger, podem buscar uma nova agenda, ter uma abordagem mais agressiva. E o fato de o Banco Mundial estar envolvido nesse trabalho do Brasil é excelente.

A mídia dá às secas a mesma atenção dispensada a enchentes, terremotos e outros desastres?

De jeito nenhum. Destaca-se um pouco quando há uma crise, mas, uma vez que o evento passe, a atenção da mídia se volta para outro tema. Mas a comunicação é muito importante no processo de prevenção de novos desastres relacionados à seca. A mídia precisa não só noticiar as secas, mas também o processo de planejamento contra novos desastres. Diferentemente de um cientista ao publicar um artigo, os jornalistas sabem passar a mensagem de maneira que as pessoas entendam.