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REPORTAGEM

Latino-americanos vivem mais, embora enfrentem novas ameaças à saúde

4 de setembro de 2013

O pai de Mario Rodriguez foi diagnosticado com pressão alta e a família inteira tomou medidas para lidar com essa doença.

DESTAQUES DO ARTIGO
  • Em média, os latino-americanos vivem hoje 30 anos a mais do que em 1970.
  • Nos últimos 20 anos, houve aumento dos casos de obesidade, diabetes, hipertensão e outras doenças não transmissíveis.
  • Em compensação, há menos mortes causadas por doenças nutricionais, maternas e de recém-nascidos.

Quando o pai de Mario Rodriguez foi diagnosticado com pressão alta, a família inteira tomou medidas para lidar com essa doença silenciosa, porém mortal. Todos mudaram o regime alimentar para dar apoio a Rodriguez e evitar o destino de muitos latino-americanos nos dias de hoje.

A hipertensão é apenas uma das doenças crônicas que se alastram agora na América Latina, criando uma sobrecarga para a saúde na região, segundo um novo relatório (i).

Desde 1970, a expectativa de vida dos latino-americanos aumentou de forma expressiva e em muitos países as pessoas estão vivendo, em média, 30 anos a mais.

No entanto, apesar dos latino-americanos estarem vivendo mais, o relatório alerta que eles enfrentam uma ameaça ainda maior proveniente das doenças crônicas, da violência e das lesões resultantes dos acidentes de trânsito.

De fato, em 2010, as doenças não transmissíveis (DNTs) nos adultos – como as cardiopatias, a obesidade e a diabetes – superaram as enfermidades transmissíveis infantis como principal causa de óbitos na região.

Em nenhum outro lugar esse dado é mais importante do que no Caribe, onde o impacto das DNTs se intensificou a tal ponto que cinco vezes mais pessoas estão morrendo de doenças crônicas do que de todas as outras enfermidades combinadas.

A crescente prosperidade da América Latina explica parte dessa transformação.  À medida que a classe média da região se expande, compra cada vez mais alimentos ricos em gordura e açúcar – perigosos à saúde se consumidos em excesso.

Mas a questão não está associada apenas a esses produtos. As lesões resultantes dos acidentes de trânsito começaram a afetar cada vez mais a saúde humana.

A cada ano, 130 mil pessoas morrem (i) nas estradas da região e mais 6 milhões acabam feridas. Como resultado, a América Latina ocupa um nada invejável lugar de destaque no ranking global de mortes por acidentes rodoviários.

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Grande parte do aumento das DNTs no Caribe pode ser atribuído a fatores de risco individuais, como os maus hábitos alimentares, a falta de atividade física, o tabagismo e o consumo excessivo de álcool Close Quotes

Carmen Carpio
Especialista em Saúde Pública

Aumento das doenças não transmissíveis

 Este ano, o tema central do Dia Mundial da Saúde foi a hipertensão, considerada o segundo maior fator de risco para doenças cardíacas na América Latina (o primeiro é a obesidade). Estima-se que uma em três pessoas tenha pressão alta, embora não saiba disso.

Até agora, as causas da enfermidade são desconhecidas, mas os fatores determinantes são relacionados ao estilo de vida, como o excesso de alimentação, o consumo de álcool, a falta de exercício físico e o tabaco.

Atualmente, na América Latina, um quarto dos homens e 13% das mulheres fumam, o que constitui uma espécie de bomba-relógio para a região. Durante um evento no Dia Mundial Sem Tabaco (e), o ex-presidente do Uruguai Tabaré Vasquez disse que o elemento mais importante para uma mudança de hábito é a educação.

“Tornar as pessoas conscientes dos efeitos do tabagismo sobre a sua saúde é mais eficiente e rentável do que cuidar delas depois que adoecem", explicou Vasquez.

Isso também se aplica ao Caribe (i), onde a diabetes e a obesidade estão custando caro para a saúde da população. A primeira delas está entre as cinco principais causas da perda de vitalidade em muitos países da região. Enquanto isso, na Jamaica, mais de 60% das mulheres adultas entre 35 e 54 anos estão com sobrepeso ou são obesas.

"Grande parte do aumento das DNTs no Caribe pode ser atribuído a fatores de risco individuais, como os maus hábitos alimentares (o frango frito é popularíssimo na região), a falta de atividade física, o tabagismo e o consumo excessivo de álcool", explica a especialista em Saúde Pública Carmen Carpio, do Banco Mundial.

Redução das doenças transmissíveis

Contudo, apesar do aumento das DNTs, o panorama está longe de ser sombrio. Ao longo das duas últimas décadas, a América Latina apresentou substanciais avanços nos cuidados de saúde nutricional, materna e de recém-nascidos, o que levou a uma diminuição na morte prematura e na incapacidade causadas pela maioria das doenças transmissíveis.

Além disso, a região liderou recentemente as iniciativas destinadas à expansão da cobertura universal de saúde (i), com nove países ocupando lugar de destaque em um conjunto de estudos de caso publicados no início deste ano.

Um exemplo desses programas é o Plan Nacer, da Argentina (e), que proporcionou às mulheres grávidas e às crianças – que não contam com seguro – acesso aos serviços básicos de saúde. Até agora, mais de 1 milhão de mulheres e crianças se beneficiaram do projeto.

"Esse [Plan Nacer] é o único recurso disponível para as pessoas vulneráveis", explicou Marta Pereira, assistente administrativa no Centro La Victoria, em Buenos Aires. "Nós oferecemos check-ups para mulheres grávidas e crianças, e também visitamos bairros e escolas".

Quanto às DNTs, o relatório faz questão de ressaltar que, apesar do aumento da incidência dessas enfermidades em geral, os casos de doença arterial coronariana e acidente vascular cerebral diminuíram entre 1990 e 2010.

Finalmente, no entanto, o relatório não hesita em atribuir grande parte da culpa aos fatores de risco evitáveis – má alimentação, pressão arterial elevada e álcool. Embora os latino-americanos estejam aparentemente vivendo mais, não estão levando uma vida mais saudável.

Como essa é uma grande preocupação para a região, o Banco Mundial assumiu o compromisso de ajudar a combater as principais causas das doenças. Para isso, promove serviços de intercâmbio de conhecimento, reuniões e financiamento para projetos, como Joana Godinho, gerente do setor de saúde do Banco Mundial, esclarece a seguir.

Neste mês, será lançado um estudo regional que enfocará as lições aprendidas a partir das recentes intervenções multissetoriais, com o objetivo de promover um estilo de vida saudável e prevenir as doenças crônicas. Essa iniciativa será complementada em novembro por um evento regional organizado em colaboração com a Organização Pan-Americana de Saúde.

O evento reunirá formuladores de políticas e especialistas para destacar a importância dessas intervenções, discutir os desafios envolvidos na implementação, bem como examinar as suas implicações nas futuras decisões sobre políticas públicas.