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REPORTAGEM

No Brasil, a classe média já representa um terço da população

13 de novembro de 2012

Aos 52 anos, o pedreiro Jorge Sinésio de Almeida compra as primeiras passagens aéreas: viajar é um dos sonhos da nova classe média brasileira.  

DESTAQUES DO ARTIGO
  • De 2003 a 2009, a classe média cresceu 50% na América Latina, segundo um novo estudo do Banco Mundial.
  • Os brasileiros contribuíram em pelo menos 40% para o crescimento total da classe média na região.
  • Atualmente, a classe média soma quase um terço dos 190 milhões de brasileiros.

O pedreiro Jorge Sinésio de Almeida, 52 anos, tem más lembranças das viagens de ônibus que fez de São Paulo até a cidade natal, na Paraíba. “É um trajeto de três dias em estradas horríveis. Os passageiros sempre correm o risco de assaltos.”

Atualmente, ele conta os dias para a primeira viagem que fará de avião, em dezembro. “Quero embarcar logo. Vão ser só três horas de viagem”, ele conta. “Acho que não vou ter medo. Todos os meus amigos gostaram.”

Pelo nível de renda, Almeida se enquadra na nova classe média brasileira, segundo um novo relatório do Banco Mundial. O estudo define classe média como a parcela da população que ganha entre US$ 10 e US$ 50 por pessoa (entre R$ 20 e R$ 102) ao dia.  

Explosão do consumo

A classe média representava 15% da população brasileira no começo dos anos 1980 e, agora, soma quase um terço dos 190 milhões de habitantes.

Ela cresceu graças ao bom desempenho econômico do Brasil nos últimos anos, às políticas de redução da pobreza, às novas oportunidades de trabalho para as mulheres e à melhor formação dos trabalhadores.

Entre outros temas, o estudo analisa a explosão do consumo no país, um fenômeno gerado pelo aumento do poder de compra dos brasileiros. Essa é uma tendência que deve se manter nos próximos anos, diz o relatório. “Comprar qualquer coisa – uma TV, um carro – ficou mais fácil porque há mais crédito na praça”, confirma Almeida.

As passagens de avião, por exemplo, estão entre os itens preferidos de quem ascendeu à classe média. Entre julho de 2011 e o mesmo mês em 2012, 9,5 milhões de brasileiros voaram pela primeira vez, segundo o instituto Data Popular, de São Paulo.

O bom momento do consumo, porém, esconde um risco: o de que as famílias brasileiras estejam economizando pouco. A longo prazo, se a economia do país desacelerar, essas pessoas podem tornar-se excessivamente endividadas e vulneráveis, segundo o relatório.

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Eu era pobre, mas nunca deixei de trabalhar. Close Quotes

Jorge Sinésio de Almeida
Pedreiro, Brasil

Redução das desigualdades

Desde que as medições de renda familiar começaram a ser divulgadas, nos anos 1970, a América Latina mostra-se uma das regiões mais desiguais do mundo – comparável somente com alguns países na África Subsaariana.

Ao longo da última década, no entanto, a combinação de crescimento econômico sustentado e redução das desigualdades deu origem a uma queda nos níveis de pobreza.

De 2003 a 2009, a classe média cresceu 50% na América Latina. Os brasileiros contribuíram em mais de 40% para o crescimento total da classe média na região, de acordo com o estudo.

“Acho que tanto o Brasil quanto a minha vida estão melhores do que há 26 anos, quando cheguei a São Paulo”, diz Almeida ao terminar de comprar as passagens aéreas. Em poucas palavras, o pedreiro arrisca um palpite sobre o motivo que fez sua vida melhorar desde então: “Eu era pobre, mas nunca deixei de trabalhar.”