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REPORTAGEM

Novos rumos para o Haiti: da recuperação ao crescimento de longo prazo

27 de setembro de 2012

A nova estratégia para o Haiti ajudará na reconstrução e na reforma de casas, de modo que elas se tornem mais resistentes a desastres.

DESTAQUES DO ARTIGO
  • O novo plano estratégico para o Haiti se concentra em dar mais segurança e saúde aos habitantes.
  • Prevenção e tratamento do cólera estarão disponíveis para 1,5 milhão de pessoas.
  • 600 mil haitianos terão melhor acesso à energia elétrica.

Quase três anos após o terremoto de janeiro de 2010, Haiti tem os números a seu favor.

As novas cifras de reconstrução dizem muito. Já foram removidos 11 milhões de metros cúbicos de escombros das ruas de Porto Príncipe, e já é possível voltar a circular pela cidade. Um milhão de haitianos deixaram os campos de refugiados, e 2 milhões de jovens em idade escolar recebem merenda grátis todos os dias.

A todas essas conquistas se soma o lema do novo governo: reconstruir o Haiti “vite et bien”, rápido e bem.

“Não tínhamos mais dinheiro para pagar o aluguel. Por isso, essa casa representa uma melhora total para nós. Nunca pensei que teria um lar tão bonito”, diz François Calvaire, 31 anos. Ao lado dos pais idosos, ele vive em uma casa recém-concluída como parte dos esforços de recuperação.

Esses esforços receberam hoje um grande impulso: a aprovação de um novo plano estratégico para reforçar a reconstrução do Haiti nos próximos dois anos.

A Nota de Estratégia Interina (ISN, na sigla em inglês) 2013-2014 oferece US$ 245 milhões para dar continuidade às recentes conquistas do país com relação a educação, saúde, moradia, agricultura e criação de empregos, entre outros elementos cruciais. A ISN do Haiti apóia os planos de desenvolvimento de longo prazo do país, fortalecendo instituições e melhorando o ambiente para investimentos privados.

“Temos observado um progresso substancial depois do terremoto, mas ainda é preciso fazer mais para acelerar a reconstrução”, disse Hasan Tuluy, vice-presidente do Banco Mundial para a região da América Latina. Ele ainda enfatizou que a instituição continuará apoiando atividades críticas nessas áreas.

“A reconstrução, os serviços básicos de saúde e a educação permanecem vitais quando se trata das necessidades urgentes da população”, comentou.

A ênfase dada pela ISN à população é primordial. Ela continuará fazendo do Haiti um lugar mais seguro – e dos haitianos um povo mais saudável e mais bem servido pelas instituições públicas.

Em síntese, a nova estratégia diminuirá a vulnerabilidade a desastres naturais; reconstruirá e reformará casas de modo a se tornarem mais resistentes; levará prevenção e tratamento do cólera para 1,5 milhões de pessoas; e, mais importante, melhorará o acesso à eletricidade para 600 mil pessoas. Além de sanar essas preocupações imediatas, a ISN também promove planos de desenvolvimento a longo prazo, incluindo o fortalecimento de instituições e o estímulo ao turismo.

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Hasan Tuluy
Vice-presidente do Banco Mundial para a região da América Latina

A participação comunitária é crucial

O sucesso dessas iniciativas se apóia fundamentalmente em algumas organizações com presença forte em suas comunidades. São pessoas que ajudam outras pessoas, como explica uma voluntária.

“Mostramos às pessoas como salvar suas vidas em caso de inundações, terremotos ou furacões. Ensinamos a se protegerem por si mesmas”, explicou Magalie Robert-François, do Comitê de Respostas a Riscos e Desastres Naturais, da comunidade de Tabarre.

Magalie está tão convencida do impacto do programa que sonha vê-lo implementado em todo o país. “É importante para que todos possam compreender os riscos e tenham um plano de manejo”, avaliou.

Foi assim que os haitianos aprenderam a enfrentar muitos fenômenos poderosos, como o furacão Tomás em 2010 e, mais recentemente, a tormenta tropical Isaac (que teria tido muito mais impacto se não fossem as novas estratégias de planejamento no país).

Os planos de contingência para a temporada de furacões – e os exercícios regulares de simulação – fizeram com que servidores públicos, militares e populares se conscientizassem sobre as melhores maneiras de responder a uma emergência, segundo especialistas em desastres.

Lutando para que todos fiquem seguros

As autoridades de governo admitem: ainda falta um longo caminho até que todos fiquem seguros.

“Há locais ainda em risco. Vimos isso durante o último furacão”, reconheceu Patrick Rouzier, assessor do presidente haitiano Michel Martelly.

Ele defendeu que o governo está solucionando esses problemas de forma integrada.

“A ideia não é só fazer com que as pessoas voltem a seus bairros de origem. Sabemos que poderia não haver espaço suficiente ali. No mínimo, devemos salvar vidas. Paralelamente, mandamos as pessoas de volta a seus bairros e promovemos desenvolvimento nesses bairros de modo a criar espaço suficiente para a demanda”, comentou Rouzier.

Ainda segundo ele, as autoridades tentam fazer com que o Haiti seja um lugar não só para os cidadãos quanto para os negócios.

A campanha “Haiti Aberto aos Negócios” teve grande repercussão entre os investidores estrangeiros, doadores e haitianos fora do país.

No momento, os investimentos do IFC (braço do Grupo Banco Mundial para o setor privado) chegam a US$ 55 milhões, incluindo US$ 15 milhões vindos de outras fontes. O IFC também estruturou o maior investimento estrangeiro direto desde o terremoto: a participação de US$ 100 milhões da Viettel na empresa haitiana TELECO, para melhorar o sistema de telecomunicações do país.

Em um movimento para reforçar a reconstrução e tranquilizar os doadores, o primeiro-ministro haitiano Lauren Lamothe anunciará uma nova Comissão de Reconstrução durante a Assembleia Geral da ONU, segundo o jornal Miami Herald. Além disso, chefes do Banco Mundial se encontrarão com autoridades haitianas em Nova York para revisar a estratégia de assistência e reiterar o apoio da instituição ao Haiti.