REPORTAGEM

América Latina: adotando ações mais verdes antes da Rio+20

31 de maio de 2012


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A América Latina é pioneira na utilização de pagamentos diretos para a conservação de florestas

Victor Soares/ABr

DESTAQUES DO ARTIGO
  • Os vastos recursos naturais da América Latina correm riscos se políticas de crescimento verde não forem amplamente adotadas, segundo novo relatório
  • O crescimento verde inclusivo é essencial para manter os ganhos econômicos e sociais da região
  • A América Latina e o Caribe implementaram algumas das políticas públicas verdes mais inovadoras

WASHINGTON, 31 de maio de 2012 – É difícil imaginar a América Latina sem o verde. Da imensidão da Amazônia e dos campos de trigo e soja até as enormes reservas de cobre e ouro, todas as tonalidades de verde fazem parte da paisagem da região – tanto economicamente quanto geograficamente.

Embora isso possa soar difícil e apocalíptico, muitos especialistas já se preocupam com o esgotamento dos recursos naturais, um fenômeno resultante do crescimento desordenado – o tipo de crescimento que fez da América Latina um caso de sucesso econômico nos últimos anos.

A poucos dias da Rio+20, um novo relatório defende que a região terá dificuldades de manter esse crescimento ao longo dos próximos anos se não abraçar plenamente políticas “verdes” e “inclusivas”. Ou, em outras palavras, políticas capazes de oferecer serviços acessíveis a todos os segmentos e comunidades da sociedade.

A América Latina tem a maior população vivendo em áreas urbanas – mais de 80% - e a taxa de motorização que cresce mais rapidamente no mundo. Ambos os fatores são fontes potenciais de degradação ambiental se forem deixados como estão.

A concentração urbana é um desafio particularmente grande, uma vez que 60% do PIB vêm das 200 maiores cidades latino-americanas. Isso significa que qualquer mudança nesse equilíbrio sutil poderia afetar as economias da região, como mostra o relatório Crescimento Verde e Inclusivo na América Latina e no Caribe (cuja versão em português estará disponível em breve).

Apesar desses desafios, a região parece estar em um bom momento de adotar ações mais verdes.

Em muitos aspectos, a América Latina serviu como um laboratório regional para algumas das práticas verdes mais inovadoras. Os fazendeiros do sul do México, por exemplo, são pagos para proteger as florestas: cada árvore que plantam ou deixam de cortar é revertida em dinheiro para eles, uma prática que está sendo reproduzida no resto do país. Muitos países da América Central instituíram políticas de seguros contra catástrofes naturais, o que os permite usar recursos de linhas de crédito de contingência em caso de prejuízos causados por esses desastres.

 


" Os jovens viram o que acontece com a qualidade de vida devido à poluição do ar, às mudanças climáticas ou ao esgoto não tratado, e por isso estão mais dispostos a questionar e a se engajar no diálogo a respeito disso "
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Jordan Schwartz

Economista-chefe do Banco Mundial para o desenvolvimento sustentável, para América Latina e Caribe

Progressos significativos

A América Latina fez progressos em muitos aspectos importantes. No setor energético, os planos de expansão da região contemplam a hidroeletricidade e o gás natural como fontes principais – elas proverão, respectivamente, até 50% e 30% da capacidade nos próximos 20 anos.

Além disso, a região poderia cortar seu consumo de eletricidade em 10% ao longo da próxima década se adotasse tecnologias amplamente disponíveis e capazes de oferecer eficiência energética. Tamanha redução poderia economizar US$ 36 bilhões dos países em investimentos que, de outra forma, teriam de ser feitos para expandir a capacidade de geração de energia.

Outro marco importante da região é o fato de ela dispor de acesso quase universal a água e saneamento. Atualmente, mais de 85% das populações urbanas da América Latina têm acesso ao sistema de água, enquanto a coleta de resíduos sólidos alcança cerca de 93% dessa mesma população.

E, embora o aumento da agricultura, das atividades de extrativismo e da urbanização ajudaram a aumentar o desmatamento, muitos países conseguiram, num processo contrário, estabelecer áreas protegidas – que cobrem mais de 10% do território da região, aproximadamente o dobro da área existente há duas décadas.

Esses são apenas alguns exemplos das muitas formas como a região vem conseguindo viver em harmonia com o meio ambiente. Agora, o desafio é transformar essas inovações pontuais em objeto de políticas e investimentos.

“Converter essas fagulhas de inovação em políticas convencionais e práticas amplamente adotadas é a questão que se apresenta para a América Latina e o Caribe. Políticas verdes que apoiam o crescimento econômico alavancam tecnologias limpas, processos eficientes e investimentos resistentes ao clima”, informa o relatório.

Um alerta importante: para esses investimentos e políticas resistirem à passagem do tempo, precisam beneficiar todas as pessoas da região. Novos recursos naturais, estradas ou tecnologias precisam ser usados para criar oportunidades para todos, segundo o documento.

Alguns bons exemplos já existem e são cada vez mais citados como modelos em discussões sobre políticas públicas, segundo o autor do relatório, Jordan Schwartz. As reservas de cobre do Chile, por exemplo, dão origem a uma excelente história de inclusão social e de como transformar riqueza mineral em humana.

O Chile usa os recursos de suas crescentes exportações de cobre para financiar a educação e gerar capital humano, explica Schwartz. O autor ainda nota que esse é o tipo de ação governamental com sustentabilidade inclusa e uma aura “verde” ao redor.

Por causa de exemplos como esse e de um entendimento crescente sobre os efeitos adversos de manter as coisas como estão, Schwartz tem a esperança de que a América Latina vai adotar plenamente o crescimento verde nos próximos anos.
Ele acredita que essa consciência cada vez maior, em especial por parte dos mais jovens, seja uma grande força por trás das tentativas de, 20 anos depois da Rio-92 – que estabeleceu as bases para o movimento verde de  hoje – , tornar os investimentos verdes algo mais comum.

“Eles viram o que acontece com a qualidade de vida devido à poluição do ar, às mudanças climáticas ou ao esgoto não tratado, e por isso estão mais dispostos a questionar e a se engajar no diálogo a respeito disso”, disse Schwartz.

Cidades mais verdes

  • Uma pegada de carbono urbana compacta e eficiente: subsídios para atrair as  pessoas para os centros das cidades e revitalizar economias urbanas que estavam estagnadas são alternativas usadas atualmente em locais como Cidade do México, Lima e Rio de Janeiro.
  • Expansão dos serviços urbanos básicos: entre 2001 e 2008, 63 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe ganharam acesso aos serviços de coleta de resíduos sólidos, o que aumentou a cobertura na região de 81% para 93%.
  • Transporte público e alternativas ao automóvel: embora a região enfrente o rápido crescimento de sua frota automotiva – 4,5% ao ano -, também é líder (no mundo em desenvolvimento) no projeto e na implementação de sistemas alternativos de transporte de massa, em cidades como Curitiba, Bogotá, Lima, Cidade do México, Santiago e cidades no interior da Colômbia e do México.
  • Expansão da geração de energia com baixa emissão de carbono: a geração de energia elétrica mais do que dobrou entre 1990 e 2009, crescendo a pelo menos 4% ao ano. A participação do gás natural na região aumentou de 10% em 1990 para 21% em 2009. Com o petróleo e o óleo diesel perdendo importância, o crescimento na geração de energia na região apresentou uma pegada de carbono menor do que em outras regiões.

Áreas rurais mais verdes

  • Adoção de redes de transporte e acesso rural mais verdes: a região inovou em diversas áreas capazes de conter a expansão descontrolada do tráfego rodoviário, da poluição e dos impactos sobre o uso da terra e as comunidades vulneráveis – tudo por meio do movimento pelo transporte multimodal de carga e por sistemas mais verdes de transporte rodoviário.
  • Gerenciamento efetivo de recursos hídricos: uma agenda mais participativa de governança da água vem sendo adotada por muitos países e ajudando-os a melhorar seus marcos legais e institucionais para o gerenciamento dos recursos hídricos – principalmente por meio do desenvolvimento de abordagens para o gerenciamento das bacias fluviais, com ampla participação dos setores interessados.
  • Estendendo experiências de sucesso com a agricultura sustentável: o pilar mais importante da estratégia de redução da pegada de carbono da América Latina e do Caribe tem sido a preservação das coberturas florestais e o incentivo ao reflorestamento com espécies nativas (quando possível). A região vem se mostrando líder no uso de pagamentos diretos pela conservação da floresta, com programas nacionais em curso em diversos países e em estados brasileiros.

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