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REPORTAGEM

No lugar mais rico da América do Sul, a vida do pedestre vale pouco

9 de julho de 2014

As rodovias paulistas, entre as mais inseguras do Brasil.

Nada menos que 80% das estradas de São Paulo são perigosas para motoristas e pedestres

A vida fica por um fio – ou por um pedal – nas estradas do estado de São Paulo, a região mais próspera e populosa do Brasil e da América do Sul, cuja capital é agora uma concorrida sede da Copa do Mundo.

Na cidade, andar de moto ou a pé pode aumentar consideravelmente o risco de morrer em um acidente. Nada menos do que 80% das vias de São Paulo são consideradas de alto risco para motociclistas. O número cai levemente para 75% para pedestres e 62% para motoristas.

Os dados são de um novo estudo que analisou a metade dos mais de 8.000 quilômetros de estradas do estado como parte de um projeto do Banco Mundial para melhorar a segurança nas rodovias paulistas, que estão entre as mais inseguras do país.

O fato é que nos países em desenvolvimento, e o Brasil não é exceção, acontecem 92% das mortes no trânsito do mundo, mesmo com apenas 53% do total de veículos, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Em 2012, quase 41.000 brasileiros perderam a vida nas estradas. O índice de mortalidade ultrapassa casos como os da Índia e da China, as economias mais populosas do mundo, segundo o especialista em transporte do Banco Mundial, Eric Lancelot.

“Apesar de haver muitas diferenças regionais, o Brasil inteiro está experimentando uma epidemia de insegurança”, acrescenta Paulo Guimarães, assessor do Observatório Nacional de Segurança Viária. Destaca que, em 2013, 54.000 famílias foram compensadas devido a acidentes.

O governo federal tem como objetivo reduzir em 50% a taxa de mortalidade viária até 2020. Mas, até agora, ainda há muito o que fazer para que os feriados e fins de semana não terminem sendo datas trágicas para muitos brasileiros.

Alto risco

O consenso dos especialistas e responsáveis por políticas públicas aponta para a aplicação conjunta a uma série de respostas que antes eram feitas em separado: aumentar a segurança dos veículos — como fez recentemente a Argentina — fazer cumprir energicamente as leis de trânsito, investir em educação e melhorar a infraestrutura.

Outro número preocupante do estudo sobre segurança viária em São Paulo se refere aos prejuízos econômicos. O estado perde 14,3 bilhões de dólares por ano — valor equivalente ao PIB da Jamaica — devido a mortes e lesões em acidentes de trânsito.

Um investimento de 1,14 bilhão de dólares — 0,19% do PIB do estado — em infraestrutura e segurança poderia evitar 80.000 mortes e lesões graves em 20 anos, reduzindo a taxa atual de 40%, segundo o estudo.

A ONU comemora a Década de Ação para a Segurança viária até 2020. Durante esse período, os países membros se comprometeram a adotar novas medidas para fazer frente à principal causa de morte entre a população de 15 a 29 anos.

O Brasil tem potencial para se tornar um modelo global no tema, segundo os especialistas.

“Poderia fazer com a segurança no trânsito o que fez com os programas sociais como o Bolsa Família: transformar-se em um líder no tema e um exemplo para outros países em desenvolvimento”, sustenta Boris Utria, coordenador geral das operações do Banco Mundial no Brasil.