REPORTAGEM

Os pobres do futebol: aqueles que não se chamam Neymar

7 de junho de 2014

Um menino joga bola em um bairro pobre de Salvador, Brasil.

Em um reflexo da desigualdade social no país, 8 em cada 10 jogadores vivem com menos de 1.460 reais por mês

A seleção verde-amarela, que estreia na Copa do Mundo 2014 na próxima quinta (12/6), contra a Croácia, representa a ponta mais visível de um esporte tão desigual quanto a sociedade brasileira.

A elite da bola é jovem e globalizada: 17 dos 23 jogadores convocados estão disputando o torneio pela primeira vez e 18 jogam fora do país. A equipe também tem o maior valor de mercado de todas as participantes do torneio (1,6 bilhão de reais ou 703 milhões de dólares, segundo dados da consultoria Pluri).

Por tudo isso, histórias como as Neymar Jr. e Daniel Alves – entre outros que nasceram pobres e enriqueceram jogando bola – inspiram milhares de meninos a trilhar o mesmo caminho. Mas aí há um problema.

“Para quem tem talento e sorte, o futebol certamente é um caminho para fugir da pobreza. Só que apenas uma minoria consegue”, avalia o jornalista esportivo colombiano Luis Fernando Restrepo, ex-BBC, atualmente na DirecTV.

No Brasil, essa minoria – que ganha mais de 20 salários mínimos mensais, ou 6.380 dólares– soma exatos 2% dentre os quase 31.000 jogadores registrados pela Confederação Brasileira de Futebol em 2012. E, a 82%, cabe um rendimento mensal de no máximo dois salários mínimos.

Por outro lado, no resto da sociedade, a proporção de pessoas com menos de dois salários mínimos é de 68%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“A renda do brasileiro em geral ainda é baixa. Mas, no caso dos jogadores de futebol, chama a atenção o fato de ela ser ainda menor”, comenta Cláudia Baddini, especialista em proteção social no Banco Mundial.

Open Quotes

Para quem tem talento e sorte, o futebol certamente é um caminho para fugir da pobreza. Só que apenas uma minoria consegue Close Quotes

Luis Fernando Restrepo
Jornalista esportivo

Desempregados e desamparados

Os jogadores também têm mais dificuldade de fazer valer seus direitos trabalhistas. Um deles é o seguro-desemprego, algo extremamente necessário para a categoria: cerca de 80% dos jogadores brasileiros ficam parados durante pelo menos seis meses por ano, depois que os campeonatos estaduais acabam.

O dado é do Bom Senso Futebol Clube – entidade de jogadores que se dedica a dar mais transparência ao esporte e melhorar as próprias condições de trabalho.

“Com tal calendário, muitos jogadores assinam contratos curtos. Quando eles terminam, os atletas estão na rua e sem seguro-desemprego”, conta o ex-goleiro Rinaldo Martorelli, hoje advogado e presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), ligada ao FIFPro, sindicato global dos esportistas da bola.

O seguro só é dado a quem foi demitido sem justa causa, não a um profissional cujo período de trabalho simplesmente acabou, explica ele, um dos raros jogadores que tiveram sucesso na passagem dos campos para uma carreira mais duradoura.

Como fazer essa transição, por sinal, é um dos muitos temas que ficam esquecidos na formação dos atletas.

Formação limitada

No Brasil – e especificamente em São Paulo –, muitos clubes têm convênios com escolas. Por meio deles, o jogador só consegue entrar em campo se estiver com o boletim em dia.

“O problema é que, com a rotina de treinos necessária para se profissionalizar, dificilmente os atletas conseguem prestar atenção às aulas. Para não atrapalhar a carreira dos meninos, as escolas acabam aprovando-os sem que os alunos saibam interpretar um texto ou fazer uma conta corretamente”, critica Martorelli.

Tão ruim quanto terminar a escola sem realmente ter aprendido é ficar sem usufruir das oportunidades de estudo disponíveis hoje para os jovens de baixa renda. “Há programas do governo que dão acesso a cursos profissionalizantes e a bolsas parciais ou integrais em universidades. Não sabemos se os atletas conhecem essas alternativas”, diz Cláudia Baddini.

“Os clubes e as escolinhas formam o esportista em si, não uma pessoa integral. É importante insistir mais no tema da educação”, analisa o jornalista Luis Fernando Restrepo.

Diversos temas sociais tornaram-se mais visíveis a partir do momento em que uma das sociedades mais desiguais do mundo conquistou o direito de sediar a Copa. Merecem atenção, em particular, as necessidades de quem decidiu adotar o esporte como meio de vida. O desafio do Brasil é não se esquecer dessas pendências uma vez que o torneio acabe.