REPORTAGEM 27 de março de 2018

Produtividade: a diferença entre empresas que decolam ou naufragam

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Vista do porto do Rio de Janeiro. 

Foto: Governo do Brasil


Comparação entre indústrias aeroespacial e naval do Brasil ajuda a entender como abertura comercial, proteção estatal e subsídios impactam a economia do maior país latino-americano

O céu e o mar brasileiros abrigam dois exemplos extremos do que pode beneficiar ou não a produtividade e a economia do país. No primeiro caso, está a Embraer, que esteve perto da falência antes de ser privatizada, no fim de 1994, e hoje é considerada uma das ilhas de excelência do Brasil, com investimento de 10% em inovação.

No segundo, a indústria naval, que passou por seguidas tentativas de fortalecimento com impulso do Estado. O último ciclo de crescimento do setor começou turbinado por bilhões em crédito subsidiado e reserva de mercado, por meio de encomendas da Petrobras. E terminou em 2015, com mais de 50 mil trabalhadores demitidos e empresas quebradas.

A comparação entre ambas chama a atenção no recente estudo lançado pelo Banco Mundial sobre produtividade no Brasil.

O documento joga luz sobre alguns dos problemas que levaram o país à retração de 1% na produtividade agregada de sua economia em 20 anos (1996-2015): barreiras à concorrência externa e doméstica; estratégias de promoção de “campeões nacionais” (caso da indústria naval); e subsídios a indústrias específicas para compensar as altas taxas de juros, os impostos altos e a infraestrutura pobre que geram o custo Brasil.

Ao mesmo tempo, segundo o relatório, o Brasil é o país latino-americano que mais se beneficiaria com o aumento da produtividade total dos fatores (PTF, medida pela eficiência como se usam os recursos do país).

A renda per capita nacional poderia aumentar 2,7 vezes se a PTF fosse tão alta quanto a dos Estados Unidos, comparado a um aumento de 2 vezes em um país de renda média na América Latina e Caribe.

“Países como Chile e México, que passaram por um processo de profunda integração internacional e têm mercados bastante abertos, apresentam diferença de produtividade mais baixa em relação aos EUA”, informa o documento.

Cadeias de valor

A economia brasileira é uma das mais fechadas do mundo e isso também está na raiz dos problemas de produtividade, pois trava o acesso a tecnologias e conhecimentos que poderiam ser úteis para a indústria nacional.

O relatório traz um exemplo: “Em média, o Brasil tem mais restrições ao comércio de serviços do que a média na região da América Latina e Caribe, (...) com as pontuações mais restritivas nos serviços financeiros e profissionais, que são insumos críticos para o aumento da produtividade e concorrência”.

Essa barreira de integração às cadeias produtivas internacionais foi vencida pela Embraer depois da privatização. Para ser eficiente, a empresa busca peças e serviços nos quais consegue a melhor relação entre custo e benefício, dentro ou fora do país. Isso fez dela, simultaneamente, a segunda maior exportadora e a terceira maior importadora do Brasil, além de estabelecer uma cadeia competitiva de fornecedores locais.

Uma delas é a Globo Usinagem, indústria metalúrgica do interior de São Paulo. Wellington Martins, diretor de operações da companhia, conta que, desde a fundação (em 1987), a Globo Usinagem está com a Embraer. Mas foi a partir da privatização da indústria aeronáutica que os saltos de produtividade começaram.


"Você não cria uma cadeia de fornecedores locais com base em uma reserva de mercado artificial. Se houver isso, qual é o incentivo para que as empresas sejam eficientes?"
Guimarães Pinheiro
Gerente administrativo e financeiro da Globo Usinagem

Desde então, a metalúrgica passou por uma série de programas de capacitação de fornecedores, tornando-se cada vez mais competitiva. Os padrões de qualidade exigidos pela empresa trouxeram clientes de outros setores, como a indústria automotiva e de óleo e gás.

Além disso, levaram a companhia a exportar parte de sua produção para os Estados Unidos e a Europa, e considerar até a possibilidade de investir em uma planta fora do país. “Você não cria uma cadeia de fornecedores locais com base em uma reserva de mercado artificial. Se houver isso, qual é o incentivo para que as empresas sejam eficientes?”, questiona Guimarães Pinheiro, gerente administrativo e financeiro da Globo Usinagem.

Prejuízo à competitividade

Na contramão da aposta de integração da Embraer às cadeias produtivas internacionais, estão as seguidas tentativas de fortalecer a indústria naval no país.

“Historicamente, os estaleiros brasileiros nunca foram competitivos sem o apoio do governo e sempre viveram de ciclos”, observa Jesus Cardoso, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Município do Rio de Janeiro. “Temos de ser capazes de competir no mercado externo”.

Ao mesmo tempo, a obrigatoriedade de encomendar navios e plataformas a fornecedores nacionais mal preparados prejudicou seriamente a Petrobras, que teve de pagar mais caro pelos equipamentos e sofrer com atrasos que prejudicaram a expansão da produção de óleo e gás.

Para o economista Marcos Lisboa, do Insper, as muitas derrocadas da indústria naval brasileira simbolizam a ineficiência e as distorções provocadas por políticas mal dirigidas de apoio a empresas. “Ficamos isolados, tentando fazer tudo sozinhos e fazendo mal”, explica.

Reverter essa tendência é importante para retomar o crescimento da produtividade e gerar um crescimento econômico sustentável no país. Entre 1996 e 2015, o crescimento médio anual do PIB foi de 3%, muito abaixo da média de países como China e Índia (9% e 7%, respectivamente). E, mesmo assim, grande parte desse resultado se deve ao bônus demográfico de uma população jovem, que começa a envelhecer.

Em compensação, segundo o estudo, o Brasil pode crescer cerca de 4,5% ao ano se aumentar a taxa de produtividade para o nível registrado nos anos de 1960 e 1970.

Alguns caminhos propostos pelo estudo:

• Abrir mercados e reformar as regulamentações empresariais para aumentar a concorrência;

• Promover a reforma tributária;

• Acabar com subsídios ineficazes e destinar esses recursos para a inovação e o apoio aos trabalhadores em um momento de transição tecnológica e intensificação da concorrência;

• Definir objetivos claros para promover a produtividade, melhorar a coordenação de políticas públicas para o setor e avaliar cuidadosamente seus resultados.


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