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REPORTAGEM

Espírito Santo cuida da Mata Atlântica e garante água limpa para todos

3 de maio de 2013

A fazenda do produtor de café César Krohling conta com 42 hectares de Mata Atlântica.

DESTAQUES DO ARTIGO
  • Duas bacias hidrográficas – Jucu e Santa Maria da Vitória – proveem a maior parte da água consumida na região metropolitana da capital.
  • Nos últimos anos, a poluição causada pelo mau uso da terra provocou um aumento no custo de tratamento da água.
  • Para baixar esse custo e cuidar dos recursos naturais, o governo do Espírito Santo recompensa os fazendeiros que preservam a Floresta Atlântica e evitam poluir a água.

A água que abastece a região metropolitana de Vitória – onde vive mais da metade da população do Espírito Santo – percorre um longo caminho desde as serras do estado.

Nos últimos anos, essa água começou a descer cada vez mais contaminada por sedimentos e pesticidas, o que aumentou os custos de tratamento. 

“Esse é o resultado de várias práticas nocivas nas fazendas da serra”, analisa Gunars Platais, especialista ambiental no Banco Mundial. Felizmente, esses costumes ainda podem ser modificados – e mudar comportamentos custa bem menos do que qualquer melhoria no sistema de água.

De que maneira o Espírito Santo vem fazendo isso? O estado recompensa os donos de terra que adotam práticas sustentáveis, como:

  • Preservar e recuperar as áreas de Mata Atlântica. Todo o estado está dentro desse bioma, um dos que dispõem de maior biodiversidade no mundo. No entanto, devido ao desmatamento, sobraram apenas 11% de cobertura florestal -- e a maior parte está fragmentada, o que representa um risco à sobrevivência de várias espécies.
  • Manter a cobertura florestal à beira dos rios e afastar o gado das margens dos rios Jucu e Santa Maria da Vitória. Quando o gado é mal gerenciado, os rios podem acabar sendo contaminados por fezes e urina. Além disso, o desmatamento acelera a erosão da terra e pode aumentar a quantidade de sedimentos na água.
  • Diminuir a quantidade de agrotóxicos usada nas plantações e/ou investir em agricultura orgânica.

Todas essas medidas ajudam a diminuir a poluição dos rios, com outra vantagem. “Se conseguirmos diminuir em 0.5% a quantidade de sedimentos, o governo do estado poderá economizar pelo menos R$ 1 milhão em tratamento de água”, explica o engenheiro florestal Marcos Sossai.

Ele e Platais, ao lado de especialistas do Banco Mundial e do governo estadual, vêm implementando um projeto que paga aos donos de terra uma quantia anual e variável – que permite a esses donos de terras investir em atividades sustentáveis.

Quando os fazendeiros se oferecem para participar, técnicos do projeto medem a área, fazem uma análise ambiental e estabelecem objetivos (e pagamentos) sob medida.

 “Com o dinheiro, eles conseguem comprar mudas, construir cercas que afastam o gado da floresta, entre outras coisas”, descreve Sossai.

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Acredito que muitos dos meus vizinhos vão se interessar porque nosso município tem 45% de cobertura de Mata Atlântica Close Quotes

César Krohling
Produtor de café em Marechal Floriano (ES).

Compromisso de longo prazo

O projeto ainda incentiva os fazendeiros a manter as boas práticas. Se as metas não são cumpridas, eles têm de devolver o dinheiro ao governo.

A obrigação é rígida, mas mesmo assim os donos de terra não desistem. A iniciativa já atraiu 90 proprietários. Espera-se que mais 210 se voluntariem.

“Acredito que muitos dos meus vizinhos vão se interessar porque nosso município tem 45% de cobertura de Mata Atlântica”, conta César Krohling, que planta café em Marechal Floriano.

Cerca de 42 dos 88 hectares da fazenda de Krohling ficam em uma área de floresta que começou a ser preservada há 133 anos pelo bisavô alemão dele.

Esse esforço agora é recompensado com um pagamento de R$ 7 mil ao ano. Além disso, o fazendeiro se comprometeu a recuperar mais meio hectare de Mata Atlântica. A tarefa lhe renderá R$ 2 mil em três anos.

“Não é muita coisa, mas pelo menos ajuda, e há mais gente valorizando a preservação dos recursos naturais”, comenta. 

 Inovação global

O trabalho feito no Espírito Santo segue um modelo global conhecido como Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Na concepção do sistema, as florestas oferecem água limpa, sequestram a emissão de gases causadores de efeito estufa e constituem o hábitat de várias espécies, entre outros “serviços”.

“Embora o serviço venha da Mata Atlântica, o PSA dá reconhecimento a quem a preserva”, explica Sossai.

Um dos principais desafios do modelo é manter-se atraente à medida que o tempo passa. “Por isso, é importante oferecer pagamentos de curto e longo prazos, bem como assistência técnica que ajude os fazendeiros a aumentar a produtividade sem agredir o meio ambiente”, complementa Platais.

Com Minas Gerais e São Paulo, o Espírito Santo está entre os poucos estados que já experimentaram o sistema. Em todo o mundo, o modelo vem sendo implementado na Costa Rica e na Nicarágua – entre outros países –, com bons resultados.