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REPORTAGEM

Desigualdade no abastecimento de água é um dos grandes desafios para a América Latina

30 de agosto de 2012

Região mais rica do planeta em termos de recursos hídricos, a América Latina abriga quase 31% da água doce no mundo.

DESTAQUES DO ARTIGO
  • Quase 31% da água doce do mundo está na América Latina, o que torna a região a mais rica do planeta em termos de recursos hídricos.
  • Uma população urbana crescente e a falta de financiamento para os serviços nas zonas rurais aumentam as desigualdades entre campo e cidade no que diz respeito ao acesso à água.
  • Uma iniciativa para aumentar a transparência nos setores de óleo, gás e mineração traz potencial para encontrar soluções em comum para as questões relativas à água.

Com quase 31% dos recursos hídricos do mundo, a América Latina é a região mais rica do mundo em termos de disponibilidade de água doce por pessoa. Mesmo assim, em toda a região, a irregularidade no abastecimento de água e no saneamento básico faz com que esses serviços não cheguem a quem precisa.

Embora sempre tenham existido áreas com abundância de recursos hídricos e outras mais secas, essa desigualdade torna-se exacerbada pela falta de consciência a respeito dos reais custos da água.

“O público geralmente crê que a água da torneira não representa nenhum custo para o Estado e, portanto, deveria ser de graça para todos. Não ocorre a essas pessoas que existe um tratamento necessário para tornar a água potável e que é preciso transportá-la em caminhões-pipa”, explica Yehude Simon, assessor de comunicação do Programa de Água e Saneamento do Banco Mundial.

“Não existe uma cultura de preservação da água, e isso significa que esse recurso normalmente é desperdiçado. As pessoas ainda não se deram conta do real valor que ela tem.”

Em toda a América Latina, 100 milhões de pessoas são desprovidas de acesso a saneamento básico. E, com mais de 80% dos latino-americanos vivendo em cidades, essa desigualdade é mais sentida nas áreas rurais da região, onde a falta de água e saneamento é comum.

Com impactos na saúde, na educação, no turismo e em outras áreas, a falta de saneamento básico pode diminuir o Produto Interno Bruto (PIB) de 2% a 3%, segundo um estudo feito pelo Programa de Água e Saneamento no sul da Ásia.

E, à medida que as megacidades da América Latina se expandem, a tendência é que as políticas públicas se concentrem nas necessidades da crescente população urbana. Mas, embora o investimento em água e saneamento aumente as diferenças entre as zonas urbanas e rurais, em muitos países isso não necessariamente significa falta de recursos financeiros. O que falta é treinamento profissional para fazer a manutenção das redes.

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O público geralmente crê que a água da torneira não representa nenhum custo para o Estado e, portanto, deveria ser de graça para todos. Close Quotes

Yehude Simon
Assessor de comunicação do Programa de Água e Saneamento do Banco Mundial

Países comparados

Apesar de abrigar uma boa parte da água doce da região, o Brasil fica num modesto 23º lugar mundial no que diz respeito à disponibilidade de água por pessoa, atrás de muitos países latino-americanos.

No Peru, estima-se que a população em 2025 será de 35,5 milhões, número que representa uma ameaça aos recursos hídricos locais. Promover o uso responsável da água e dos serviços de saneamento básico torna-se, nessa circunstância, essencial. 

Por isso, em 2011, o Water Hackathon — uma competição mundial de especialistas em ferramentas para celulares — identificou as necessidades de educar e aumentar a conscientização sobre o tema. Na ocasião, foi lançado um concurso de aplicativos com o mote “Não entendemos a real situação dos recursos hídricos no nosso país e, por causa disso, eles são desperdiçados”. Este ano, o concurso focará na questão do saneamento básico.

No Equador, garantir a sustentabilidade do saneamento rural é o objetivo de um projeto conjunto do governo do país e do Banco Mundial. Iniciada em 2001, a iniciativa provê itens de saneamento básico — como privadas, fossas sépticas e pias — a comunidades pobres rurais.

Transparência e responsabilidade

Rica em minerais, petróleo e gás, a América Latina viu a renda desses setores aumentar 20 vezes ao longo da última década — e, com isso, o peso sobre os recursos hídricos da região.

Aqui, no entanto, uma parceria do Banco Mundial traz potencial de resultados surpreendentes. A Iniciativa pela Transparência das Indústrias Extrativas (EITI, na sigla em inglês) tem o objetivo de promover a lisura dos lucros vindos dos setores de petróleo, gás e mineração.

Mauricio Oscar Ríos, especialista em comunicações e conflito, explica que os diálogos multipartidários provocados por essa iniciativa — e a confiança que ela dá aos governos, à iniciativa privada e aos grupos da sociedade civil — podem dar origem a soluções coletivas em temas relacionados à água.

“Por meio de uma plataforma envolvendo muitas partes interessadas, é possível buscar reformas governamentais capazes de reduzir os problemas do setor”, comenta. “A EITI apresenta um espaço para o diálogo e vai além dos relatórios de lucro. Mas esse é um processo que não acontece da noite para o dia.”

Até o momento, o Peru é o único país latino-americano que participa integralmente da iniciativa. A Guatemala e Trindade & Tobago, por sua vez, já começaram o processo de adesão. Mas, segundo Ríos, embora 15 países tenham participado de um recente evento sobre o tema em Lima, a participação regional na iniciativa ainda carece de força.