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REPORTAGEM

No Nordeste, investimentos livram as mulheres do peso das latas d’água

28 de agosto de 2012

Rita de Cássia, da Comunidade Negra do Jatobá: "Eu sofria para lavar a louça. Agora tenho tempo para outras coisas".

DESTAQUES DO ARTIGO
  • No Rio Grande do Norte, investimentos em água e setores produtivos permitiram às mulheres dedicar mais tempo ao trabalho dentro e fora do campo, o que levou a um aumento de 30% na renda familiar.
  • Os investimentos também contribuíram para a redução das horas gastas com as atividades de casa.
  • A conexão entre abastecimento de água e questões de gênero será analisada em outras partes do Nordeste atendidas por projetos de redução da pobreza.

Descritas em músicas e filmes como fortes o suficiente para carregar, por quilômetros, uma lata d’água na cabeça, as mulheres de comunidades rurais pobres no Nordeste estão deixando esse peso para trás – e usando mais tempo e energia para atividades que de fato melhoram suas vidas.

Para essas mulheres, trata-se do principal resultado dos investimentos feitos em água e nos setores produtivos locais, de acordo com um novo estudo do Banco Mundial.

Buscar água ainda é a tarefa que consome a maior parte do tempo das mulheres no Nordeste. Mas as coisas estão mudando no Rio Grande do Norte, onde 2.700 iniciativas apoiadas pelo Banco beneficiaram 90.000 famílias pobres rurais ao longo de oito anos.

As mulheres diminuíram a quantidade de horas gastas com essa função e com as tarefas de casa, informa o estudo, feito em 20 comunidades. Nas horas livres, elas puderam se dedicar mais às atividades do campo, o que melhorou tanto a renda agrícola quanto a qualidade da comida servida em casa.

Elas também passaram mais tempo trabalhando fora, o que deu origem a um aumento de 30% na renda familiar.

“Eu sofria para lavar a louça. Agora tenho tempo para outras coisas”, diz Rita de Cassia, moradora da comunidade quilombola Jatobá.

“Plantamos, colhemos. Todo sábado, levo os produtos à feira, onde posso tirar R$ 70, R$ 90 ou até R$ 100”, comenta Geralda da Silva, do Assentamento 8 de Março.

“A água trouxe benefícios imediatos às famílias pesquisadas. Permitiu a elas ter mais tempo para tarefas diferentes, para descansar ou simplesmente brincar”, conta Fatima Amazonas, que coordenou o estudo de caso e gerenciou o Projeto de Redução da Pobreza Rural no Rio Grande do Norte.

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As mães de filhos solteiros contam com eles para buscar água. Mas, quando esses homens se casam, nunca mais ajudam Close Quotes

Fatima Amazonas
Gerente do Projeto de Redução da Pobreza Rural no Rio Grande do Norte

Superando a desigualdade

O estudo também discute como os investimentos deram às mulheres confiança suficiente para ampliar suas redes sociais e a interação com instituições do governo local.

Além disso, os projetos locais ajudaram a promover uma maior consciência sobre a desigualdade entre homens e mulheres, algo ainda forte na região. 

“No campo, quando tentamos fazer algumas coisas que são típicas dos homens, eles não concordam”, reclama Maria Ozilene da Silva. 

“As mães de filhos solteiros contam com eles para buscar água. Mas, quando eles se casam, nunca mais ajudam, transformando as mulheres nas únicas responsáveis pela função”, diz Fátima. “A boa notícia é que, à medida que os projetos foram evoluindo, os homens cada vez mais se ofereceram para ajudar as mulheres.”

Estudos parecidos deverão ser feitos em breve em outros estados apoiados por projetos de redução da pobreza, como Ceará e Sergipe. Também nessas iniciativas, dar mais poder às mulheres será algo tão importante quanto prover os investimentos que as libertam do peso das latas d’água.