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COALIZÕES PARA A MUDANÇA

Discurso perante a Junta de Governadores


James D. Wolfensohn
Presidente
Grupo do Banco Mundial

Washington, D.C., 28 de setembro de 1999


É com grande prazer que lhes dou as boas-vindas a esta Reunião Anual do Grupo do Banco Mundial e FMI.

Gostaria de expressar meu agradecimento ao Presidente, Mahesh Acharya, cujo trabalho no Nepal mostra uma profunda compreensão de muitas das questões que vou abordar hoje. E ao meu colega e amigo Michel Camdessus. Trabalhamos cada vez mais juntos e quero elogiar a maravilhosa equipe por ele liderada.

Sr. Presidente, tive o privilégio de me dirigir ao senhor em quatro ocasiões anteriores.

Em 1995, falei do desafio do desenvolvimento, da necessidade de educar as meninas e reduzir o ônus da dívida. Observei a necessidade de que o Banco se reorganizasse internamente e formasse alianças externas com um vigor todo novo, parcerias com outras instituições oficiais de assistência e desenvolvimento, com a sociedade civil, o setor privado, bem como que trabalhasse de maneira mais estreita com o governo e o povo dos países aos quais servimos.

Em 1996, enfatizei nossa função como Banco do Conhecimento. Falei também do "câncer da corrupção". O Banco se comprometeu a ajudar os governos a combater a corrupção. Desde então, promovemos vigorosamente essa agenda.

Mais tarde, com nossos parceiros no FMI, articulamos nossa estratégia de perdão da dívida dos países mais pobres. A Iniciativa HIPC representou uma contribuição importante e nas reuniões que se seguiram à Cúpula de Colônia avançou-se ainda mais.

Em 1997, falei do "Desafio da Inclusão", da necessidade de pensar o desenvolvimento em termos humanos e trazer os mais fracos e vulneráveis das margens da sociedade para o centro do palco.

Há um ano, quando a crise financeira da Ásia dominava nossas preocupações, falei da "Outra Crise", a crise humana dos condenados à pobreza, bem como dos que encontraram esperança para depois vê-la arrancada de suas mãos. Falei da função especial de nossa instituição no sentido de atenuar o impacto da crise sobre a população e da necessidade urgente de olhar para além das soluções financeiras, de juntar o social e o estrutural ao macroeconômico.

Sr. Presidente, ao nos reunirmos um ano depois, existe a tentação de nos confortarmos com a idéia de que a crise financeira passou, embora para milhões a outra crise ainda persista.

Existe a tentação de deixar de lado as reformas necessárias, embora para milhões essas reformas ainda sejam importantes. Existe a tentação de falar de uma travessia segura, embora para milhões de pobres e desempregados não exista nenhum porto à vista.

Reunimo-nos hoje no limiar de um novo milênio. Devemos fazer um balanço e formular algumas perguntas fundamentais. Aproveitaremos o momento para propor metas mais ambiciosas para um mundo melhor? Começaremos a julgar nossos esforços não pela prosperidade de uns poucos mas pelas necessidades de muitos? Estaremos preparados para assumir a responsabilidade e fazer o esforço necessário para que as coisas mudem?

Que visão temos do mundo no final deste milênio?

Um mundo em que nos últimos 40 anos a esperança de vida aumentou mais do que nos últimos 4.000 anos. Um mundo em que a revolução das comunicações apresenta a promessa de acesso universal ao conhecimento. Um mundo em que a cultura democrática abriu oportunidades a muitos. Um mundo em que 5,7 bilhões de pessoas vivem em economias de mercado, em comparação com 2,9 bilhões há 20 anos.

Mas, se olharmos mais de perto, veremos uma outra realidade.

Este ano, a renda per capita se estagnará ou diminuirá em todas as regiões, com exceção do leste e sul da Ásia. No mundo em desenvolvimento, com exceção da China, o número de pessoas que vivem na pobreza aumentou em 100 milhões nos últimos dez anos. Pelo menos em 10 países da África, a Aids reduziu a esperança de vida em 17 anos. Mais de 33 milhões de casos de Aids no mundo, sendo 22 milhões na África; 1,5 bilhão de pessoas não dispõem de acesso a água potável e 2,4 milhões de crianças morrem a cada ano de doenças transmitidas pela água; 125 milhões de crianças não estão na escola primária; 1,8 milhão de pessoas morrem anualmente devido à poluição dentro de suas casas. Um mundo em que a defasagem de informação está aumentando e um acre de florestas é destruído a cada segundo.

Sr. Presidente, a situação é desigual e os desafios são grandes. Mas, este é um momento na história em que podemos traçar para o mundo um novo rumo de paz, eqüidade e segurança. É um tempo não apenas de exame, mas de ação.

Meus colegas e eu decidimos que, de modo a traçar nosso rumo para o futuro, precisávamos conhecer melhor nossos clientes. Lançamos o estudo "Vozes dos Pobres" e conversamos com eles sobre suas esperança, aspirações e realidades. Equipes do Banco e de ONGs escutaram as vozes de 60.000 homens e mulheres em 60 países. Gostaria de apresentar-lhes os resultados.

A pobreza não é só uma questão de renda. Os pobres procuram um bem-estar que é paz de espírito, saúde, comunidade e segurança. É escolha e liberdade, bem como uma fonte estável de renda.

O bem-estar consiste em ter a chance de aproveitar novas oportunidades econômicas, algo para o qual os pobres se sentem menos capazes do que há uma década.

O bem-estar é segurança pessoal. Muitas mulheres estão trabalhando fora de casa, para cobrir as despesas. Mas persiste a desigualdade entre os sexos e a violência doméstica está aumentando.

A corrupção é um fato que se mostra no cotidiano quando os pobres tentam obter acesso aos serviços públicos e ganhar a vida.

O que os pobres respondem quando lhes perguntamos o que seria mais importante para eles? Eles dizem que são organizações próprias, para que possam negociar com o governo, comerciantes e ONGs. Assistência direta mediante programas comunitários para que possam forjar seu próprio destino. Propriedade local dos fundos, para que possam eliminar a corrupção. Querem que as ONGs e os governos lhes prestem contas.

Gostaria de mostrar-lhes o mundo deles em suas próprias palavras.

Uma mulher idosa na África :"Uma vida melhor para mim é ter saúde, paz e amor, sem passar fome."

Um homem de meia idade na Europa Oriental: "Estar bem é saber o que me acontecerá amanhã."

Um jovem no Oriente Médio: "Ninguém é capaz de comunicar nossos problemas. Quem nos representa? Ninguém."

Uma mulher na América Latina: "Não sei em quem confiar, na polícia ou nos criminosos. Nós somos a segurança pública. Trabalhamos e nos escondemos."

Uma mãe no sul da Ásia: "Quando meu filho me pede algo para comer, digo que o arroz está cozinhando até que ele adormeça de fome, pois não tem arroz."

Trata-se de vozes fortes, vozes de dignidade. Muitas representam uma nova geração que procura controlar sua vida. Essas pessoas têm valor, não são objeto de caridade. Podem construir seu futuro se tiverem oportunidade e esperança. Estão falando de segurança, uma vida melhor para seus filhos, paz, família e uma vida sem ansiedade e medo.

Ao nos sentarmos confortavelmente aqui em Washington devemos escutar suas aspirações, pois não são diferentes das nossas.

A crise não acabou, Sr. Presidente. O desafio mal começou. No próximo mês a população global chegará a 6 bilhões. Se as tendências atuais continuarem, não atingiremos a meta de reduzir a pobreza pela metade até 2015, nem a meta de proporcionar educação primária a todos nesse mesmo ano. Se as tendências atuais continuarem, não atingiremos a meta de reverter a perda de recursos ambientais, no âmbito nacional e mundial, até lá. Dentro de 25 anos, a população passará de 6 para 8 bilhões. Dos 6 bilhões atuais, 3 bilhões vivem com menos de 2 dólares por dia e 1,3 bilhão com menos de 1 dólar. Estou preocupado com a possibilidade de que essas cifras aumentem para 4 bilhões e 1,8 bilhão, respectivamente. Não é esse o legado que queremos deixar para nossos filhos.

É provável que o número de conflitos aumente, que a qualidade do meio ambiente piore e que as disparidades entre ricos e pobres se ampliem.

As vozes dos pobres serão mais fortes, mas serão escutadas?

Sr. Presidente, o que aprendemos sobre desenvolvimento? Aprendemos que o desenvolvimento é possível, mas não inevitável. O crescimento é essencial, mas não suficiente para assegurar a redução da pobreza.

Aprendemos que devemos colocar a pobreza à frente e no centro. Aprendemos que devemos tomar o social e o estrutural junto com o macroeconômico e o financeiro.

Aprendemos que, para que o desenvolvimento seja real e efetivo, é preciso que a população local participe. Já se foram os dias em que o desenvolvimento podia ser feito a portas fechadas em Washington, nas capitais do Ocidente ou em qualquer outra capital.

Numa reunião realizada recentemente em Estocolmo para avaliar o progresso do Esquema Integral de Desenvolvimento, o Presidente Mkapa da Tanzânia afirmou: "A identificação com as políticas e programas de desenvolvimento não só é uma aspiração compreensivelmente nacionalista e um direito soberano, mas cria a mais fervorosa disposição e condições propícias a um trabalho dedicado e autodesenvolvimento, tanto no âmbito nacional como no local."

"Nosso povo deve ser incentivado", disse ele, "a ser dono do seu desenvolvimento: não só beneficiários, mas agentes do desenvolvimento."

Devemos atender a esse apelo ao planejarmos nossas agendas de desenvolvimento para os próximos anos. Mas devemos fazer ainda mais. Devemos reconhecer nossa própria função em ternos de ajudar, não atrapalhar, esses agentes do desenvolvimento mediante uma melhor coordenação das nossas atividades. É uma vergonha que a Tanzânia deva produzir 2.400 relatórios a cada trimestre para as instituições internacionais. Também é uma vergonha que a Tanzânia deva receber 1.000 missões por ano. E a Tanzânia não é um caso isolado.

Que devemos fazer? Sr. Presidente, ao reconhecer a necessidade de coordenar melhor nossas atividades, reconhecer o caráter integral do desenvolvimento e colocar o país no comando, lançamos o Esquema Integral de Desenvolvimento este ano.

Nosso objetivo é simples: juntar os aspectos social e estrutural do desenvolvimento ao macroeconômico e financeiro para estabelecer uma estratégia mais equilibrada e eficaz. Reunir os agentes para alavancar nossas atividades. Trabalhar com toda a comunidade do desenvolvimento: Nações Unidas, União Européia, bancos de desenvolvimento bilaterais e regionais, sociedade civil e setor privado para construir uma nova geração de parcerias genuínas.

Que resultados obtivemos até agora? Junto com nossos parceiros, esse esquema está sendo aplicado em 13 países. Estamos aprendendo a cooperar e coordenar melhor nosso trabalho no âmbito local.

Após conversações com muitos ministérios, acredito que esse esquema conta com amplo apoio. Não como um modelo, mas um processo mediante o qual visamos a um desenvolvimento a longo prazo, comandado pelo país e em parceria com a comunidade de desenvolvimento.

Em breve, o Comitê de Assistência ao Desenvolvimento publicará seu relatório sobre as iniciativas bilaterais e multilaterais nos mesmos moldes desse esquema. Esse relatório constatou que a necessidade de parceria e maior coordenação das atividades é amplamente reconhecida e aceita.

Estou muito satisfeito também com o fato de termos obtido um acordo histórico com o FMI no sentido de elaborar uma Estratégia de Redução da Pobreza com os governos. Adotaremos uma estratégia equilibrada, vinculando os parâmetros macroeconômicos e financeiros com os aspectos humanos, estruturais e sociais, num documento que guiará os programas de cada instituição.

Mas, nos últimos 12 meses, acho que aprendemos também outra coisa. Aprendemos que as causas das crises financeiras e da pobreza são uma só. Os países podem elaborar boas políticas fiscais e monetárias, mas, se não tiverem um bom governo, se não atacarem o problema da corrupção, se não tiverem um sistema jurídico completo que proteja os direitos humanos, os direitos de propriedade e os contratos e proporcione uma base para a legislação falimentar e um sistema fiscal previsível, se não tiverem um sistema financeiro aberto e regulamentado, regulamentos apropriados e um comportamento transparente, o desenvolvimento terá falhas e não será duradouro.

De quer servem as leis se os juízes forem corruptos, se os pobres e mais vulneráveis só esperam brutalidade da polícia?

De que serve a proteção constitucional, se as mulheres enfrentam discriminação no trabalho e em casa?

De que serve o investidor estrangeiro, se não existem normas de contabilidade e requisitos de transparência ou lei sobre contratos e se o sistema fiscal não é previsível nem justo?

De que serve a privatização, se não há rede de segurança social para proteger os desempregados nem regras para proteger o público dos monopólios privados dos ?

Falhas no desenvolvimento institucional e na administração pública e falta de pessoal adequadamente e bem remunerado afetam destrutivamente a formulação de políticas, a prestação de serviços e a responsabilização.

Aprendemos com a experiência geral e com os programas do esquema integral de desenvolvimento que, para enfrentar o desafio de reduzir a pobreza, devemos atribuir prioridade ao fortalecimento da organização, da capacidade humana e da estrutura do Estado, no âmbito central e local. Ao programar as atividades no âmbito desse esquema, devemos fazer todo o possível para melhorar o sistema de governo e desenvolver a capacidade da administração pública e da sociedade civil.

Essa decisão é confirmada por uma pesquisa de 150 coordenadores realizada recentemente pelo PNUD. Mais da metade atribuiu prioridade à necessidade de fortalecer o governo e reforçar a capacidade. É apoiada por uma pesquisa recente de mais de 3.600 empresas privadas em 69 países que identificou a necessidade de fortalecer as instituições e o processo normativo. É apoiada por nossas próprias consultas com os pobres que repetem sempre os mesmos apelos: muita corrupção, muita violência, pouco poder e muita fraqueza. Anseiam por um sistema que lhes dê eqüidade e voz. E se não puderem obter isso través do voto ou do governo, que seja mediante organizações informais fora do governo.

O que seria realmente necessário para passar da impotência a uma cultura democrática? O que é preciso para passar da fraqueza à capacidade de ação? O que é preciso para passar da violência à paz e eqüidade?

Primeiro, é preciso um verdadeiro compromisso dos líderes de cada país, tanto os eleitos quanto aqueles que detêm poder financeiro e influência.

É preciso ter disposição de reformar sistemas de governo, regulamentos e instituições; é preciso promover o reforço da capacidade. É preciso que as forças policiais não sejam mais encaradas como agentes de opressão em vez de proteção e segurança. Será preciso contar com instituições locais que aproximem o governo dos pobres. Será preciso que os cidadãos preparem e executem seus próprios programas porque há menos corrupção quando a comunidade administra seus próprios recursos.

Seja no âmbito governamental ou comunitário, seja sob o prisma da crise financeira ou das necessidades humanas, seja investidores, banqueiros ou pobres, a boa administração e a capacidade são essenciais. Ao colocarmos a redução da pobreza na frente e no centro da nossa agenda, nosso trabalho deve se concentrar na boa administração pública, nas instituições e no fortalecimento da capacidade.

Vários estudos já demonstram o que intuíamos. O bom governo está associado com um PNB per capita mais alto, maior alfabetização de adultos e menor mortalidade infantil. O mau governo – falta de responsabilidade e transparência, corrupção e crime – é o maior obstáculo ao desenvolvimento e redução da pobreza. Um governo fraco prejudica a iniciativa de redução da dívida, que só dará resultados se os recursos liberados forem dedicados à redução da pobreza. Com um governo fraco, não haverá progresso em educação, saúde, água, energia ou desenvolvimento rural e urbano. Um governo fraco deixa o país e seu povo à margem da corrente econômica. E os manterá na margem. Pois, se os empréstimos só são eficazes em países com políticas e instituições adequadas, quem emprestará aos países que mostram um desempenho fraco?

O Banco Mundial se propõe a atribuir ênfase, nos próximos anos, à colaboração com os governos para fortalecer a estrutura e a administração pública.

Temos todas as respostas? Não. Temos todo o conhecimento necessário? Certamente não. Só podemos ser bem-sucedidos em parceria com outros membros da comunidade de desenvolvimento, incluindo a sociedade civil e o setor privado. Nos próximos meses nos uniremos ao PNUD, que tem uma capacidade especial e experiência nessa área, e a outras entidades para examinar o que cada uma está fazendo em termos de reforma do Estado e fortalecimento da capacidade. Avaliaremos os pontos fortes e a experiência de cada uma e determinaremos a melhor maneira de seguirmos adiante juntos.

Para executar essa agenda, deveremos nos concentrar na inter-relação dos sistemas que dão bons resultados e permitem o funcionamento eficaz das sociedades. Deveremos nos concentrar em bons sistemas de administração publica com contrapesos e salvaguardas e os governos devem assumir a luta contra a corrupção.

Será preciso estabelecer sistemas jurídicos e judiciários que protejam os direitos dos cidadãos e seus esforços, que transcendam os grandes pactos do setor público e privado. A corrupção está no centro da questão da pobreza, roubando dos pobres o pouco que têm. Devemos nos concentrar em sistemas financeiros e bancários que inspirem confiança no investidor global e no agricultor com poucos recursos, especialmente as mulheres. Devemos ter procedimentos empresariais modernos, inclusive contabilidade, auditoria e ampla divulgação no nível mais alto. Devemos nos concentrar em esquemas de microcrédito e financiamento para as pequenas e médias empresas que trabalham em épocas de crise e períodos normais.

Devemos treinar funcionários públicos bem organizados e motivados e líderes cívicos que tenham como propósito o serviço à comunidade. Devemos nos lembrar de que esse treinamento se baseia num sistema eficaz de ensino e aprendizagem. Devemos nos concentrar na criação de instituições locais fortes, tanto oficiais quanto da sociedade civil, que inspirem confiança. Pois não há dúvida de que o nível local é a verdadeira chave da redução da pobreza.

É preciso mais que alterações nas regras formais para criar essas instituições. É preciso mudar as regras e normas informais, formar as pessoas, promover os valores, reforçar as habilidades e incentivos que podem apoiar os que estão empenhados na mudança.

Um novo modelo está surgindo na África: as Parcerias para Fortalecimento da Capacidade. Levou dois anos para passar do conceito à ação. Foi elaborado por africanos e será implementada por africanos. Envolve o apoio direto e a colaboração do Banco, FMI, PNUD e Banco Africano de Desenvolvimento e se baseia em parcerias com o setor privado e a sociedade civil. Fornecemos US$ 150 milhões a um fundo de apoio. Uniremo-nos aos nossos colegas africanos para apoiá-los num esforço coordenado e urgente para atingir seus objetivos.

Mas devemos recordar a advertência do Presidente Mkapa. Devemos criar agentes do desenvolvimento. Demasiados esforços de fortalecimento da capacidade fracassaram porque não tinham raízes locais.

Sr. Presidente, falei bastante sobre a complexidade de atingir nossas metas em cada país. Mas sabemos que os países dependem uns dos outros. Sabemos que os países não são mais donos de seu próprio destino. Precisamos de regras globais e comportamento global. Precisamos de uma nova arquitetura internacional de desenvolvimento que corresponda à nova arquitetura financeira global.

Como seria essa arquitetura internacional de desenvolvimento?

Primeiro, seria uma coalizão baseada na cooperação de todos: Nações Unidas, governos, entidades multilaterais, setor privado e sociedade civil. Uma coalizão entre beneficiários, instituições e cidadãos, uma coalizão baseada nos resultados. Deve haver uma utilização eficiente da assistência ao desenvolvimento, que evite a corrupção e beneficie os pobres. Os eleitores querem ver essa assistência bem utilizada. A boa vontade existe, falta o bom desempenho.

Segundo, seria uma coalizão que reconhece que devemos romper as correntes da dívida, mas também devemos ter os recursos para ir ainda mais além e romper os grilhões da pobreza. O perdão da dívida dos países pobres que anunciamos é o início de nosso desafio, não o fim.

Terceiro, seria uma coalizão que reconhece que devemos ter um sistema de comércio adequado, com regras e normas justas e abrangentes. Uma Rodada de Desenvolvimento para o século XXI.

Quarto, seria uma coalizão que reconheça que o meio ambiente não tem fronteiras. Precisamos implementar acordos internacionais sobre alteração climática, desertificação e diversidade biológica, assim como fizemos com a redução da camada de ozônio. Devemos trabalhar nessas convenções globais. Devemos assegurar que o Fundo para o Meio Ambiente Mundial disponha dos recursos para cumprir sua função.

Quinto, seria uma coalizão que reconheça o poder da pesquisa moderna na democratização da saúde, de modo a descobrir novas vacinas para erradicar a Aids, malária, tuberculose e poliomielite.

Sexto, seria uma coalizão que tornasse a revolução da informação realmente universal, para reduzir a defasagem de conhecimento, ligar todas as economias em desenvolvimento e transição ao mundo e entre si e ser um instrumento de aprendizagem e intercâmbio via satélite, e-mail, Internet. Pois não há dúvida de que a revolução tecnológica terá um impacto enorme sobre a substância do desenvolvimento.

Sr. Presidente, a globalização pode ser mais que a liberação das forças do mercado global. Pode ser a liberação de nosso esforço e capacidade combinada para atingir soluções globais.

Precisamos criar coalizões para a mudança. Coalizões com o setor privado que proporcionem investimento, criem empregos, promovam a transferência de tecnologia e capacidade e fomentem a responsabilidade social.

Coalizões com a sociedade civil e comunidades para mobilizar o tipo de apoio de base que esteve por trás da campanha da dívida – e estendê-lo à saúde, educação para todos, participação e redução da pobreza.

Coalizões com os governos para ajudá-los a assumir suas próprias agendas de desenvolvimento com a participação dos cidadãos. Coalizões entre uns e outros para acabar com as lutas fratricidas, desperdício e duplicação.

Coalizões com as igrejas, sindicatos e fundações que beneficiem nosso trabalho em comum. Coalizões de fidelidade aos compromissos das Nações Unidas: desenvolvimento sustentável, igualdade entre homens e mulheres, educação, mortalidade infantil e materna e saúde reprodutiva.

Ofereço nossa intenção de colaborar com todos os nossos parceiros e ajudar a construir essas coalizões para a mudança de modo que, quando nos reunirmos no ano que vem em Praga, tenhamos começado a implantar essa nova arquitetura do desenvolvimento.

Sr. Presidente, apresentei uma agenda complexa. O Banco está pronto para enfrentar esse desafio? Acredito que sim. Já estamos aplicando mais de US$ 5 bilhões por ano na promoção da boa administração pública, reforma do funcionalismo público, gestão do orçamento, administração fiscal, descentralização, reforma jurídica, reforma judicial e fortalecimento institucional.

Estamos trabalhando com mais de 24 países em programas de combate à corrupção. Ajudamos a capacitar juízes, realizamos seminários públicos que discutem abertamente a corrupção. Até mesmo treinamos jornalistas investigadores, conscientes de que uma imprensa livre e profissional é a voz de uma sociedade.

No tocante ao conhecimento, registramos notável progresso nos últimos quatro anos. Nosso Banco de Conhecimentos nos aproxima mais através da aprendizagem à distância via satélite. E leva o conhecimento a lugares longínquos, reduzindo a defasagem de informação e chegando aos estudantes através da Universidade Africana Virtual e nosso programa WorldLinks, que interliga estudantes do mundo industrializado com seus irmãos e irmãs no mundo em desenvolvimento.

Temos um importante projeto para melhorar as favelas com programas baseados nos esforços dos moradores com os quais trabalhamos para introduzir títulos de propriedade e projetos auto-sustentáveis de infra-estrutura. Com o World Wildlife Fund formamos uma aliança poderosa para salvar nossas florestas; com o setor privado, as Nações Unidas e as fundações estamos construindo uma Aliança Global de Vacinas e Imunização, um Grupo de Trabalho sobre Vacina contra AIDS e uma iniciativa contra a malária. Com mais de 140 parceiros, já conseguimos controlar a oncocercíase. Trata-se de um exemplo fabuloso do que podemos conseguir juntos. E estamos trabalhando com as comunidades locais, formando parcerias, mediante instituições democráticas locais, como na Índia. Aprendemos que os projetos mais eficientes são aqueles que têm uma base local e estão próximos de nossos verdadeiros clientes, os pobres das áreas rurais e urbanas. Aprendemos que a participação local ocupa um lugar central em nossa arquitetura.

O Banco está pronto para esse desafio? Acredito que temos 10.000 funcionários extraordinariamente dotados e dedicados no Banco, IFC e MIGA. Foi um ano duro e quero agradecer-lhes e a suas famílias pelas contribuições que fizeram.

Sr. Presidente, estamos no limiar de um novo milênio. Quantas possibilidades temos ao nosso alcance!

Teremos a coragem e a liderança para agarrar essas oportunidades? Reconheceremos finalmente que vivemos num só mundo? Olhem em volta. Estamos interligados por sistemas financeiros, pelas comunicações, pelo meio ambiente, pelo comércio. A migração não conhece fronteiras, o crime não conhece fronteiras, as drogas, a guerra e a paz não conhecem fronteiras.

Somente os orçamentos nacionais esbarram nas fronteiras. Somente as eleições nacionais dão pouca atenção ao mundo mais amplo.

Necessitamos de líderes para explicar às nossas populações que nossos interesses nacionais são internacionais. Não podemos evitar o crescimento da população global nos próximos 30 anos, que deverá chegar a 8 bilhões, nem o crescimento do comércio ou da pobreza.

Devemos reafirmar nosso compromisso com o desenvolvimento, um verdadeiro compromisso com os outros, um compromisso de traduzir em ação as declarações que tantos líderes de países industrializados dirigiram aos países em desenvolvimento. Devemos atingir o nível recomendado de dedicar 0,7% do PNB à Assistência ao Desenvolvimento Oficial. Os líderes das economias em desenvolvimento e em transição devem reafirmar seu compromisso de boa administração, eqüidade e crescimento.

Esses compromissos devem ter um aspecto humano e moral. Deve existir uma nova e fervente dedicação recíproca ao começar o próximo século. Todos devemos assumir a responsabilidade pela equidade global, que é a única garantia da paz. Que nos sirvam de inspiração os comentários que citei antes.

Um pai da Europa Oriental: "Pobreza é humilhação, a sensação de depender de alguém, de ser forçado a aceitar insultos e indiferença ao buscar ajuda."

E a voz de Bashiranbibi no sul da Ásia: "No início tinha medo de tudo e de todos: meu marido, a aldeia, a policia. Hoje não tenho medo de ninguém. Tenho minha conta bancária. Sou líder do grupo de poupança da minha aldeia."

Sr. Presidente, devemos olhar para a frente, devemos nos comprometer a fazer com que um dia os pobres, os idosos, os meninos de rua, os incapacitados, os trabalhadores rurais, os favelados sejam capazes de dizer: "Hoje, não tenho medo de ninguém."


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